A ERA DA INCERTEZA

Definitivamente vivemos a era do medo. Medo da molécula e suas cópias, medo de golpe do governo, medo do desemprego, da fome, do desamparo… Medo também de um dia se perder o direito à livre expressão… Medo de se ter o confinamento como único meio de sobrevivência, ainda por muito tempo… Medo da solidão, medo da tristeza.

Alguns têm buscado se aliviar por meio da arte, da leitura, da culinária, dos filmes, enfim. Entretanto, a aflição de se saber habitante de uma nação em total desequilíbrio, descompensada como nunca, aproveitando aí um termo largamente utilizado para questões patológicas, vem sabotando nossos ânimos para uma fuga do caos. E tudo isso tem sido a causa de uma neurose sem precedentes na história, que fez morada no peito tupinambá, com prazo indeterminado para deixá-lo.

Meio milhão de mortos pela peste já se tornou fato corriqueiro, e o assunto nem tem o destaque que teve antes nos noticiários. Mas tem o diabo da variante delta, centena de vezes mais contagiosa, para tirar o sono.

E então somos acometidos pelo mal que nos persegue como a uma sombra: aquela pessoa que me dirigiu a palavra usava uma ou duas máscaras? Estava a dois metros de distância? Posso ir ao mercado ou não? Cadê o álcool em gel… onde o deixei? Exagero se usar o protetor facial?

E o outro, sem dúvida, se tornou inimigo.

Governantes insistem na volta às aulas presenciais. Logicamente que haverá protocolos a serem seguidos. Pergunta: as escolas têm condições de seguir os tais protocolos ou tudo tende a virar Brasil? Sabe, amigo leitor, nunca uma expressão caiu tão bem como esta na questão que diz respeito à presença da molecada nas escolas. Expressão, diga-se de passagem, sempre pertinente em tudo o que diz respeito à esculhambação nacional. Para quem não sabe, segue a dica: ela é usada quando se pretende dizer que a coisa avacalhou de vez.

Mas o medo não há de vencer. O que sobra na prateleira do brasileiro é esperança, afinal. Isso porque essa gente tem a habilidade impar de fingir não perceber o que de fato ocorre bem debaixo do seu nariz. Levando em conta, claro, que essa percepção também foge ao entendimento da maioria. Pessoas para quem um discurso vago de autoridade qualquer pode ser tomado como verdade absoluta e irrefutável. É o resultado de se ter vivido pouco ou quase nada o ambiente escolar, de nunca ter aberto um livro para viajar nele um sem fim de aventuras em que os pensamentos que habitam suas páginas permitem que se abra na mente um universo de outras possibilidades.

Vivemos, pois, a era da incerteza. Não é segredo para ninguém, aliás, que o futuro é uma incógnita. Mas aqui neste circo a coisa torna-se ainda mais grave, uma vez que em outros países convive-se com a eterna expectativa de que algo de bom possa ocorrer nas sociedades em função de economias estáveis, empregos em alta, distribuição de renda mais justa, violência em baixa… Aqui não. Nada se nos afigura confiável, senão a dor da frustração e do desalento, sobretudo no entardecer da vida, em que até o óbvio desce do pedestal da obviedade para se assumir incerto como tudo.

PROF.RODOLFO DE SOUZA

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