O império decidiu que era hora de deixar o país distante e entregá-lo à própria sorte. Embarcou, pois, em acordo costurado pelo tresloucado governo passado, deixando à mercê do terror a gente do lugar.
Mas o senso comum determina que não é sua obrigação continuar bancando milhares de soldados, equipamentos, armas e uma tremenda estrutura em nação estrangeira só para… Na verdade, não se sabe bem o que o império fez por lá durante vinte anos, nem o que o teria levado para aquele lugar. Dizem que correu em perseguição ao facínora que supostamente espalhou terror na grande metrópole em meados deste século.
Fato é que outrora o império esteve também na velha Mesopotâmia, com a desculpa esfarrapada de prender o ditador daquele país, por causa de seu arsenal de armas biológicas que seria utilizado sei lá para quê. Talvez para dizimar a população do planeta, incluindo seu próprio povo, claro. Neste caso, aliás, só o tirano sairia ileso da hecatombe, e, de seu bunker, governaria uma nação de mortos, que certamente não trabalhariam para sustentar seu luxo e fomentar sua crueldade. Muito óbvio isso! Tão óbvio que deixa dúvidas quanto às intenções de liberdade e paz, bandeira que o império vem defendendo com unhas e dentes desde que se descobriu império.
E quem, diga-se de passagem, não se lembra de quando ele disputou com o país do frio um território lá no oriente? As décadas que se passaram não foram suficientes para apagar as cicatrizes deixadas pela insanidade. E muito se matou por aquelas bandas e muito se morreu também por lá, além da grana colossal torrada na empreitada. Mesmo assim, a peleja acabou por sagrar vencedor a nação gelada, depois de vinte longos anos. É o eterno jogo da potência que apoia este contra a que apoia aquele. E, uma vez em campo, os donos da bola fingem não saber que gente vai ficando pelo caminho. Gente com família e história. Gente que respira, pensa e sente, assim como as pessoas que jogam e que movem com destreza suas peças para derrubar e eleger governos, sempre à custa do sangue alheio.
Poderoso que só vendo, e em meio a tantas turnês de conquista mundo afora, o império ainda arrumou tempo para exercitar a arte de furar o olho do irmão latino-americano, pessoa consideravelmente mais próxima. Sua atuação vem impedindo o desenvolvimento de nações que poderiam, por que não, botar em xeque a sua supremacia, possibilidade que, sem dúvida, o faz perder o sono. Debaixo de sua bota, pois, tem respirado com dificuldade o povo de língua espanhola e uma gente de fala portuguesa, habitante de um vasto território que sofre com a influência nefasta, mas que não se entrega, tendo ao seu lado a modernidade que não vê com bons olhos o domínio estrangeiro. Afinal, vive-se hoje o século XXI, século que esbanja tecnologia, com a informação em tempo real e com o inconformismo em tempo real.
De qualquer forma, a questão afegã mergulhou o mundo em novo paradoxo: Tio Sam teria deixado órfã uma população que se habituou com a presença estrangeira que lhe garantiu, durante vinte anos, uma liberdade nunca antes experimentada. O tempo, afinal, tem esse poder de modificar o entendimento acerca das relações humanas, e aquilo que, a princípio, soou como agressão, depois virou parceria. E a juventude que nasceu e cresceu sob o jugo americano, se viu repentinamente abandonada pelo que tinha de melhor: o invasor.
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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