Lembro-me de um comercial antigo que dizia assim: dinheiro não move montanhas, compra. Trocando em miúdos, ele faz muito mais do que mover montanhas, ele compra. Compra tudo e a todos.
Por que inicio o texto com palavras que deixam no ar um tom meio cinzento de sabor amargo é o que certamente passa pela cabeça de quem deita os olhos nesta atraente folha de jornal em busca de uma boa leitura, dessas que livram momentaneamente nosso espírito das mazelas diárias, mesmo que delas trate o texto, mesmo que este faça caminhar as mentes sobre o chão pedregoso do desalento. Talvez a poesia inserida aqui e acolá, nas entrelinhas de uma crônica é que conferem esta magia tão necessária à alma, sobretudo em dias conturbados como estes.
Mas o dinheiro, objeto primeiro desta reflexão, não contempla o bolso da maioria dessa gente sofrida, cá do meu Brasil. Refiro-me obviamente a vultuosas somas, não ao troquinho minguado para a condução do dia a dia. Falo da grana que possibilita a compra de conforto, fartura e luxo desmedido. Trato aqui das fortunas utilizadas para comprar o poder. Se no silêncio da madrugada, quando o sono é escasso e o pensamento voa em direção a este assunto, certamente não nos escapam as indagações: poder sobre o quê e para quê? Sobre as pessoas, obviamente. Poder para traçar os rumos da economia de uma cidade, de um estado ou de um país, com vistas a satisfazer unicamente aos interesses de meia dúzia em detrimento da maioria. Esse costume é antigo, diga-se de passagem. Por certo que remonta as primeiras civilizações.
E esse poder em países absolutistas ou de democracia um tanto frágil quanto esta de terras tupinambás, sempre conduz a uma desigualdade social aviltante, que escancara a sua brutalidade para uma sociedade que finge consternação, mas que no fundo deseja que o pobre continue a ser pobre, uma vez que, de alguma forma, é merecedor de sua sina.
E o poder segue seu rumo esbanjando felicidade e tramando, na calada da noite, mais golpes para se tornar ainda maior. E esse tamanho descomunal, esse excesso de brilho provem daquele que não se embebe dos mesmos privilégios, embora caiba a ele a manutenção da soberba de quem detém o poder, engordando-lhe suas contas bancárias daqui e do exterior. O que sobra, pois, em riqueza a este último, falta-lhe em escrúpulos.
Mas é preciso tramar. Que não seja perdido um só minuto de conversa a respeito de futebol. É necessário rigor no tocante à receita parlamentar, aos recursos advindos do executivo para que se possa comprar, sempre comprar. Que toda a atenção esteja voltada para o ganho fácil. Quem será obrigado a abrir mão de seus parcos haveres para sustentar a farra autorizada, a isso não cabe preocupação maior. A vida, por que não, concedeu a uns poucos toda a riqueza, venha ela de onde vier. Basta que se feche os olhos para a sua origem. Somente isso! E se alguém discordar, que seja comprado também, desde que seu voto tenha valor, logicamente.
É assim, afinal, que funciona o mecanismo criado exclusivamente para enriquecer uma minúscula parcela do povo à custa do empobrecimento de toda a nação.
Mas as próximas eleições já batem à porta. Cabe, pois, à maioria usufruir do seu direito e escolher melhor dessa vez, não obstante o seu parco entendimento que poderá jogá-lo mais uma vez na armadilha da conversa fiada.
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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