Lá, onde o céu se junta com o mar, é a fronteira do meu país com o resto do mundo.
Mundo, às vezes, parecido com o meu e, por vezes, bem diferente. Realidades opostas, em
nada alinhadas ao que se vive em terra Tupinambá, é o que se vê normalmente em territórios
situados acima da linha do Equador. E o povo alegre do meu país, em sua grande maioria,
sequer tem ideia do contraste entre uma coisa e outra.
Mesmo para aquele que estudou, ainda estuda e que tem a leitura como companheira
imprescindível no dia a dia, a diferença chega a causar estranheza. Bastou, pois, que eu desse
um pulinho em solo europeu para sentir no ar uma tranquilidade nada comum em meu país.
As pessoas que transitam pelas calçadas, pelos mercados e lojas, sem se dar conta, carregam
no semblante uma paz oriunda da vida boa que levam cá neste lugar.
Chego a rir, por exemplo, quando lembro dos carros de partidos políticos que
trabalharam numa recente campanha política. Imagine, caríssimo, eles falavam de combate à
corrupção! Tal apelo soou nos meus ouvidos como algo muito longe da realidade do meu
imenso e querido chão. Porque venho desta terra, paraíso dos criminosos, endereço da
promiscuidade e da impunidade, cheguei a sentir certa graça naqueles apelos. Será que essa
gente, cá desta terra lusitana, sabe que o comando da maior nação da América Latina está nas
mãos de um poder que visa tão somente pilhar seus cofres e retirar do povo o direito à
dignidade? Tudo na calada da noite ou do dia, porque eles não se importam mais?
Não, o europeu, uma vez diante de tanta patifaria, certamente ficaria mudo, com o
olhar carregado de estupefação, incapaz de acreditar que se trata da realidade ultrajante que
varre a economia de nosso país e devolve miséria ao povo. Ações devidamente arquitetadas
com a devida vênia dos poderes constituídos.
E o europeu então compreenderia por que, devagar, a alegria vem se apagando dos
olhos de uma população, antes sorridente e musical, agora cada vez mais entregue ao
desalento. Claro que ela não perdeu ainda a capacidade de sonhar com a chegada do dia em
que não mais terá que viver sob o jugo da fome, uma forma de violência, que também leva a
outras, num interminável ciclo de violências. É a brutalidade oriunda do poder outorgado
pelo próprio povo que vem se equivocando a cada pleito. Não é culpa dele, coitado,
levando-se em conta o parco saber de que é vítima, e que o leva a se identificar com as
palavras vazias de gente que nada tem a oferecer senão a ruína do seu país e de suas vidas.
Aqui em além-mar há uma igualdade social inconcebível para quem se habituou a ver
a miséria convivendo lado a lado com o luxo, e este último fingindo não perceber a realidade
aviltante à sua volta. Fica até a impressão de que este necessita dessa diferenciação para se
sentir poderoso, exclusivo. Talvez até tenha medo da ameaça que representa novamente a
presença da pessoa simples nos aeroportos, locais concebidos, a princípio, para uma elite que
já pensa em novo movimento do tipo daquele ridículo “cansei”, de 2007.
Na verdade, nós é que cansamos.
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