O homem morreu tentando salvar o desconhecido que se afogava na enchente. Teria sido eletrocutado por um cabo elétrico, solto pela ventania. Não, o homem nem desconfiava de que morreria na ação. Não entregou, pois, sua vida para livrar da morte o outro. Heroísmo a tal ponto, só no cinema. Teria sido a fatalidade a autora do seu destino, afinal. Ele só tentava estender a mão a alguém, certo de que havia uma chance de salvá-lo.
Perto dali, a mulher se desesperava com o aguaceiro que tomava o seu carro e o arrastava rapidamente, sabe-se lá para onde. Para um córrego, talvez. Logo, alguns homens que testemunhavam a sua aflição, lançaram-se na água, equipados somente com uma corda. Foram bem sucedidos na empreitada, apesar do sufoco. É curioso como o ser humano parece ter a força dobrada em momentos em que depende dela para salvar a própria pele ou a do semelhante.
Ao sentimento que habita o coração humano, levando-o a buscar, sempre que pode, a salvação do irmão, mesmo correndo o risco de se ferir ou até mesmo de morrer, dá-se o nome de solidariedade. Termo um tanto comum, embora tenha caído no esquecimento de uma parcela da população que, na verdade, nunca conferiu a ele a devida importância.
Relatos como esses, no entanto, são corriqueiros em eventos catastróficos mundo afora, embora haja momentos em que o oposto chega para contrastar com a benevolência, com a humanidade que habita o peito daquele que está sempre propenso a auxiliar: refiro-me aqui ao comportamento do que não tolera o semelhante por causa de sua condição social, da cor de sua pele, da sua religião, sexo… Atos de violência, por fim, são registrados contra estes com uma frequência cada vez maior, impondo condições para que eles sejam aceitos no meio. Mesmo assim, é preciso reconhecer que são todos seres humanos, os que salvam e os que condenam. Apesar de que, a mente dotada de uma inteligência qualquer coisa mais refinada não entende e não concebe a condenação de uma pessoa simplesmente por ser oriunda de região menos favorecida economicamente, ou porque tem a pele escura, ou ainda por ter um conceito diferente acerca do comportamento sexual. Não concebe, inclusive, que alguém seja discriminado por não atender aos padrões de beleza estabelecidos por uma sociedade que avalia uma pessoa pela sua aparência física ou por sua conta bancária.
O ser humano preconceituoso quase sempre sente a necessidade doentia de disputar a preferência no ambiente em que vive. E, para esta criatura de parco saber, se destacar na opinião dos demais significa apontar no outro, suposto concorrente, algo que considera defeituoso, digno de troça e menosprezo.
Tudo isso, enfim, nos leva a concluir que há uma contrapartida entre o movimento solidário em que ser humano procura ajudar ser humano sem questionar antes se é merecedor do socorro, e a agressão barata entre pessoas que odeiam sem que haja razão para isso. Torna-se difícil, pois, entender o porquê de tamanha discrepância, tendo em vista que falamos de algo que nos remete à necessária conscientização de que não passamos de organismos que habitam este planeta e que, por estarem vivos, logo terão suas vidas ceifadas pela natureza, deixando para trás somente restos mortais, em tudo, semelhantes uns aos outros.
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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