O homem caminha com dificuldade pelo passeio movimentado da cidade fartamente urbanizada. A tarde cheia de sol parece não lhe inspirar qualquer sentimento bom. Seu semblante de dor revela isso, afinal. Duas muletas o auxiliam na angustiante tarefa de descer o pequeno degrau que conduz a nível inferior da calçada. Terreno acidentado é empecilho ainda maior quando as pernas já não funcionam a contento, quando a idade chega e traz com ela as doenças que cerceiam o apetite pela vida.
Diga-se de passagem, no país dos contrastes o que não falta é enfermidades, doenças variadas que minam a saúde do corpo e da alma. A miséria, aliás, é uma delas. Em outras épocas, a pobreza talvez tivesse ganhado destaque maior aqui em meio a estas linhas. Só que a miséria, em dado momento, veio para roubar-lhe o protagonismo, agravante para a qual a sociedade distraída dá as costas. É possível até que a convivência com a dor do outro tenha criado uma normalidade aviltante que resulta na crença de que ele seja mesmo merecedor de carregar fardo tão pesado.
E o homem do passeio público, ali na minha frente, me leva a pensar em tudo isso, nos segundos que antecedem o verde do semáforo. Até porque, este carrega num dos braços uma sacola plástica transparente, contendo garrafas pet e latas de alumínio. E, logo depois do esforço sobre-humano empreendido na descida do degrau, o homem, com extrema dificuldade para trocar os passos miúdos, aproxima-se do poste, onde há um cesto de lixo, para perscrutar o seu interior na ânsia de encontrar ali algo tão valioso quanto uma lata de refrigerante vazia.
É hora do almoço, e a simples ideia de que não tenha se alimentado a triste figura, que há muito passara dos sessenta, torna-se inconcebível. A aparência do homem revela isso. Essa leitura me chega clara enquanto aguardo.
Mas o sinal finalmente abre, avisando que é chegado o momento de seguir o meu caminho, este que me leva ao trabalho todos os dias. Arranquei, embora meu pensamento tenha ficado ali naquele lugar, onde um homem velho, dependente de duas muletas, busca o sustento numa lixeira da cidade.
Sua luta diária para concorrer com os mais saudáveis na infindável busca pelo plástico e pelo alumínio não facilita muito as coisas para o homem de muletas, tendo em vista o número cada vez maior de pessoas que só dispõem desse recurso para continuar sua jornada por este mundo.
Mas a fatia gorda da sociedade, a que está obesa, por causa de tanta fartura, não se importa com a tragédia que assola esta rica nação espoliada. São pessoas que dedicam todo o seu precioso tempo para elaborar tramas, as mais sinistras, com o objetivo único de ganhar ainda mais dinheiro e muita influência no meio político. O resultado disso não pode ser outro, senão a aniquilação da pátria e do seu povo. Difícil entender equação com esse grau de dificuldade. Talvez seja melhor consultar um matemático. Se bem que, um ser humano de verdade não é capaz de entender manobras desse tipo, seja ele matemático ou físico. Na verdade, só políticos entendem.
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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