MADEIRA FÁCIL, SOBREVIVÊNCIA DIFÍCIL

No começo, assassinavam árvores para vender a sua madeira. Na sequência, vinha o aniquilamento das plantas menores que estavam no caminho das toras arrastadas. Quanto aos animais que habitavam galhos e troncos, não lhes restava alternativa senão procurar nova morada.

A mão daninha, então, se alegrou por ver diante de si fartura inigualável, e soube desde cedo que seria fácil se servir de tudo aquilo. Bastava, pois, rechear a carteira de quem por ali passasse, com crachá de fiscal e ar de autoridade, e seguir com a carga. Haveria, pois, de ver gorda a conta bancária, o meliante, em prejuízo de um sistema, cuja importância nem de longe tocava sua sensibilidade nenhuma. Só o lucro imediato lhe era sensível ao coração, afinal.

Fazer acordos com a fiscalização minguada, aliás, é prática comum no seio do território. Ferramenta de que se utiliza o facínora para driblar as regras e, assim, usufruir da liberdade de deitar a motosserra no arvoredo, sem dó. Não se pode negar que as boas almas do lugar bem que tentam conter o ímpeto daquele. Mas, aos poucos, são dissuadidas da ideia de interferir em favor do verde. São mesmo convencidas de que seu senso de justiça pode acabar depondo contra elas e, por conseguinte, abreviar a sua existência aqui neste plano, onde lei é mera formalidade que não deve sair do papel.

E, por causa de tanta facilidade, é que a coisa não mais parou. Antes, ganhou proporções avassaladoras. Talvez cesse de crescer um dia, quando as cinzas da floresta se tornarem desinteressantes para os negócios. Essa é a expectativa, já que não há poder que detenha o apetite voraz de quem desmata.

E o crime se agigantou, justamente porque ganhou liberdade para se expandir. Os órgãos, cuja função é dar proteção ao meio ambiente, aos poucos, foram perdendo uns poucos colaboradores que lutavam pela causa. E estes foram substituídos por outros, comprometidos, desta vez, com o projeto de destruição da grande floresta, com o envenenamento de seus rios e com o assassinato de sua gente.

Há muito que se sabe a respeito dos mecanismos que movem a ação da bandidagem lá nos confins do norte. Mas vontade política para se dar um basta no processo, esta não existe. Talvez esteja presente para fomentar o crime, isso sim. Exemplo disso é o fato recente que deixou estarrecida a sociedade daqui e do exterior: a tragédia que levou de roldão dois homens que dedicaram a vida a proteger a mata e os povos nativos. E, como não podia deixar de ser, se interpuseram no caminho daqueles que não dividiam com eles o anseio pela causa ecológica. Logo, em terra de ninguém, o resultado não haveria de ser outro. Foram mortos, por acalentarem o sonho de ver a natureza preservada.

Muito se investigou, muito se falou, muito se protestou, até que esfriasse o assunto, que acabou atropelado por outros, da mesma forma graves.  

É assim, afinal, que se toca a vida neste longínquo sertão, terra de meu Deus. Mesmo assim, há muita gente nutrindo esperança, e isso é bom. Diga-se de passagem, esperança é alimento que não pode faltar na prateleira, já que os outros andam meio escassos.

PROF.RODOLFO DE SOUZA

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