A comunidade chora e contabiliza seus mortos. A aflição é senhora na vida de quem vive sob o jugo do bandido marginal e do bandido oficial, ambos com o perfil cruel de quem deixou as telas do cinema para protagonizar o terror no mundo da realidade.
Resta às pessoas, em noites de atrocidade, somente o refúgio oferecido pelo piso da casa, onde permanecem deitadas em meio à saraivada de balas, que vem de todos os lados. Lágrimas de pavor misturam-se ao sangue que se espalha e escorre abundante, para deleite do facínora.
E, como de costume, mais um massacre rendendo muita publicidade. Muita revolta também, além de críticas aos responsáveis. Mas todos sabem que o sinistro logo cairá no esquecimento, ofuscado por outros que virão sucessivamente, em curto espaço de tempo. A experiência de longa data vivendo no vastíssimo paraíso da impunidade, ensina que, à exceção dos mortos, todos saem ilesos da empreitada. Este, afinal, é o país que conquistou prestígio internacional pela violência que corre solta pelas suas cidades. Dentro de viaturas policiais, inclusive.
Há um clamor para que as autoridades tomem providências para frear a escalada do crime autorizado. Mas as mãos brancas e macias se recusam a assinar lei qualquer que torne mais austero o combate à covardia. O olhar terno da justiça é todo ele voltado para a proteção de uma minoria cheirosa que ostenta luxo e poder de compra. Afinal, o sangue que se esvai de indivíduo pobre, o que acontece em cem por cento dos casos, não importa a quem está no comando. O máximo que se faz é abrir um inquérito e gastar montanhas de dinheiro público com papel e tinta de impressora. Ah! Pastas de arquivo também são usadas para guardar, bem guardadinha, toda a sujeira.
Mas o povo pede que se faça justiça, embora saiba que ela sempre lhe dará as costas, por causa da sua condição social. Sabe também, essa gente, que sua voz jamais será ouvida pelas pessoas, a quem cabe tomar alguma medida. Gente graúda que só se lembra do povo em época de pleito, e, cujo cinismo, pode até argumentar que pobre é assim mesmo, está sempre à mercê de uma catástrofe, seja ela provocada pelas mãos do homem ou da natureza quando esta resolve derramar muita água, que dissolve a terra e leva de roldão casas e vidas. Logicamente que neste caso o poder se exime da responsabilidade de zelar pelo bem-estar da população menos favorecida. E, por falta de recursos, ela escolhe viver nos morros ou ao pé deles.
É por falta de recursos também que um número espantoso de seres humanos vaga pelas ruas em busca de um trocado que possa lhe garantir o tira-gosto de mais tarde, que virá em boa hora para alegrar o bucho vazio. É a miséria neste país, que ganhou contornos apocalípticos nos últimos tempos. Não, não há interesse político em se resolver qualquer um dos problemas. Assim como não há ensejo para solucionar a questão da violência fora das comunidades, que toma de assalto o trabalhador que sua a camisa todos os dias.
É a bala, é o terror, é a chuva, é a falta dela, é a fome, é o desamparo, é o desalento. Até quando? – é a pergunta que inadvertidamente escapa da garganta.
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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