Antigamente, quando se ouvia um sujeito que entendia do riscado discorrer sobre o evangelho, o coração era logo preenchido com sentimento de amor ao próximo e mansidão. Isso, porque se falava de paz e justiça em um mundo governado pela felicidade que vinha desse amor.
Entretanto, em tempos atuais, a palavra que, segundo consta nas escrituras, teria partido da boca do Senhor, vem assumindo um tom, digamos, não tão pacífico. Talvez uma intenção oculta venha se rastejando por entre seus versos para distorcer-lhes o significado inicial, sabe-se lá. Então, o que antes era manso, devagar, parece assumir uma face meio brutal, contrapondo-se ao que dizem os líderes espirituais, que se empenham para convencer o seu público de uma verdade que este aceita como sendo a única possibilidade dentre tantas possibilidades. As artimanhas de que se cerca aquele que está no púlpito, como forma de conduzir as ovelhas, cada vez mais ovelhas, faz com que gesticule muito e se utilize de recursos teatrais e vozeirão nada discreto, o que normalmente leva a plateia às lágrimas, de júbilo, de emoção ou de medo. Fenômeno um tanto difícil de digerir, embora de fácil entendimento para aqueles que possuem uma visão mais clara e mais ampla acerca do que lhes ocorre à volta.
À soma desses mecanismos que levam o rebanho, cheio de virtude santa, ao matadouro, dá-se o nome de processo de alienação. E, ao contrário do que se imagina, é muito fácil conduzir meia-dúzia ou mesmo uma massa quando o aparelho utilizado para tanto é a religião.
O fundamentalismo é, sem dúvida, um meio, talvez o mais eficiente, de manutenção de um poder que priva a população do seu bem maior: a liberdade. Seja lá qual for a nação em que o fenômeno se dá, é sempre em nome de Deus que é presa, torturada, assassinada e espoliada sua gente.
Em tempos modernos, pois, é comum lideranças com ideias voltadas a golpes, que tolhem a liberdade conquistada por meio do voto, fazerem discursos inflamados, sempre tendo nas mãos uma Bíblia, e, nas palavras, versículos extraídos dela para tentar justificar esta ou aquela medida escusa, às vezes, verdadeiras aberrações. Trocando em miúdos: a violência em nome de Deus é prática comum em lugares tomados pelo absolutismo ou propensos a ele.
Mas por que tamanho inconformismo e revolta? – indagará o leitor mais atento. Certamente por tudo o que vem ocorrendo bem debaixo de nossos narizes, e amplamente divulgado pela mídia, cuja voz tem alcance bem maior hoje do que tinha em passado recente.
Assistimos, pois, noutro dia a uma marcha para Jesus, dessas reuniões em que milhares de pessoas se unem em oração, tendo Deus como símbolo da vida e do amor. E nesse desfile, por mais estranho que possa parecer, havia um carro alegórico que carregava um revolver em tamanho gigante, talvez para ser exaltado pelos fiéis, que o seguiam sem questionar sua presença ou, o que é ainda pior, sem se dar conta de que o que sai do cano de uma arma certamente não tem qualquer relação com o amor ao próximo, pregado pelo evangelho.
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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