REFLORESTA

Tive um sonho bom, destes que raramente povoam o vasto universo dos sonhos. Nele, eu me encontrava num lugar onde antes vivera, cheia de esplendor, uma floresta imensa. No entanto, tudo ali agora era devastação e cheirava morte. Foi no tempo em que as sombras reinaram absolutas no país dos contrastes é que se deu o sinistro responsável pela aniquilação da grande mata, dos seus bichos, da gente do lugar, dos rios… E isso também mexeu com o clima de muitas regiões. Mexeu mesmo com a vida das pessoas que, distraídas, nem se deram conta dos projetos nefastos que botaram abaixo todo o verde da bandeira.

A destruição da grande mata, por fim, alterou outras paisagens. Na verdade, desequilibrou o sistema. Quem nunca havia experimentado o acre sabor da seca, passou a senti-lo na pele. Contrastando com isso, tempestades devastadoras levaram de roldão casas e gente. Muitos culpam o aquecimento global, mas, convenhamos, todo aquele arvoredo no chão, boa coisa não haveria de trazer, inclusive, mais aquecimento. Mas os responsáveis foram esquecidos, e o cadafalso erigido exclusivamente para eles, apodreceu no tempo.

Sim, admito ao caríssimo, que nada de bom tem esse sonho. Pelos menos até aqui.  Acontece que, mergulhado nos devaneios do inconsciente – acho que é de lá que vem os sonhos – convivi com algumas pessoas preocupadas com o meio ambiente. Aliás, fenômeno bastante incomum no plano da realidade. Falo de proprietários de terras, antes com florestas exuberantes, mas que agora exibiam vasta vegetação rasteira, a doer na vista.  E essa gente resolveu, então, reflorestar o lugar. E foi magnífico! Milhares de mudas nativas foram plantadas, e o resultado eu pude apreciar ali mesmo vinte anos depois, ou trinta, sei lá. Fato é que esse tempo todo se passou em algumas horas de sono bom. Nos sonhos, tudo é possível, afinal.

Acordei, pois, resplandecendo esperança. Lembrei-me, inclusive, de ter assistido a uma matéria jornalística que apresentou o trabalho de gente que dedicou a vida a replantar árvores nativas em parte de suas terras, local depredado pelas mãos daninhas do ser humano que teria vivido ali em tempos idos.

Veios de água há muito desaparecidos, retornaram. Os bichos também, aos poucos, foram ocupando o seu lugar, sobretudo pássaros e insetos. Imagine só, meu caro, a vida renovada naquele lugar, cujo dono recebera de herança e decidira pelo reflorestamento, em primeiro plano! O chão que lhe sobrara para o plantio e para o rebanho foi suficiente para tocar os negócios. Por certo que o reflorestamento não se deu numa noite de sono. Pelo menos duas décadas se passaram até que os primeiros resultados começassem a aparecer.

Iniciativa, sem dúvida, digna de aplausos! Infelizmente, porém, a maior parte dos donos deste vasto território Tupinambá vê na destruição da natureza um meio de elevar ainda mais os seus ganhos, que, aliás, já alcançaram a estratosfera. É dinheiro que o sujeito não conseguiria gastar mesmo que vivesse mil anos. Mas é preciso comprar mais máquinas e licenças para dar cabo do que sobrou da floresta, que dará lugar a mais pastagens. Sim, é necessário pensar no gado que engorda ao sol e segue para o matadouro, sem questionar a sua sina de aumentar os lucros do seu dono. A meta, afinal, é atingir Marte.

PROF.RODOLFO DE SOUZA

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