O PÁSSARO

O pássaro belisca a fruta na árvore. É fim de tarde, e o barulho estridente da sala de aula lhe é indiferente, mesmo estando meio próximo da janela o seu galho.

E o crepúsculo, com toda a sua magia, ainda fornece a tinta necessária para realçar a cena que me leva a navegar por um universo, digamos, improvável.

Depois de longo período dedicado ao árduo trabalho de ensinar, já meio rouco, dado o esforço empreendido pela voz, a cena do pássaro balançando levemente na árvore remete meus pensamentos à suavidade do mundo, esta que passa despercebida diante da visão turva do ser que não fora privilegiado com inteligência qualquer coisa mais refinada, e que, por esta razão, tem o interesse sempre voltado para a futilidade das coisas.

Mas para o olhar inquieto do cronista a imagem da ave serviu mesmo de alento a seu coração um tanto perturbado com os fatos aviltantes que nos assolam todos os dias, e que vêm caindo numa normalidade insana que nos obriga a metê-los goela abaixo. É o homem que matou a mulher por nada; são as balas perdidas que, mais do que nunca, fazem vítimas as crianças; é o sujeito que matou o outro, por este ter batido em seu carro no trânsito; é o assassino que tirou a vida do aniversariante, simplesmente porque ele defendia outra bandeira política que não a sua; é o orçamento subtraindo os recursos da nação a olhos vistos; são as manobras para facilitar a vida de quem já tem a vida facilitada; é o nome do Senhor utilizado para aliciar; é o escritor atacado, por causa de seus versos; é a ameaça de guerra; é a guerra, é a tirania desmedida, afinal.

E o pássaro aprecia a sua iguaria sem se dar conta de que tudo isso povoa a minha mente enquanto ele balança ao sabor do vento, que sempre me leva a pensar nos mistérios da vida. Aliás, nem percebe a minha presença. Nem sabe da minha existência, o desaforado. Concentra-se unicamente no seu objeto de desejo que é a pequena fruta de uma árvore qualquer. Parece até que a divina providência houve por bem enviá-lo para mostrar-me, naquele início de noite, que nem tudo está perdido. Chego a pensar, em momento de profundo e insolente devaneio, que o próprio Deus teria pousado ali para bulir com meu coração atormentado.

Mas a minha atenção, de súbito, se volta para a sala. É preciso estar atento. Não se pode distrair um só instante quando se é responsável pelo ser humano no extremo de sua existência. Gente que só veria o pássaro como um simples animal desta imensa fauna brasileira. Talvez nem o notasse. Sua mente, ainda verde, custará a se apropriar de mensagem tão profunda. É natural, sobretudo porque é necessário lapidar o espírito durante anos, talvez décadas para que ele perceba a delicadeza da imagem.

O estudante de tenra idade, enfim, não sentiria a profundidade daquela cena de aparência banal, caso a visse. Cena que, aliás, tem o mágico poder de sacudir a alma. E como sacode!

PROF.RODOLFO DE SOUZA

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