E o Brasil completa duzentos anos de independência. Um número bem redondinho. Estranha, aliás, essa mania que têm as pessoas de celebrar aniversários redondos, como se os outros não tivessem a mesma importância. E, por falar em independência e números redondos, lembro-me perfeitamente do festão que o governo militar promoveu para comemorar o sesquicentenário. Lá se vão cinquenta anos, também redondos. Diga-se de passagem, eu nem deveria estar comentando aqui período tão marcante da minha vida. Mas eu vivia, naqueles dias, todo o esplendor da minha adolescência! Mesmo assim, não considero de bom tom revelar com tanto entusiasmo esta saudade: primeiro, porque o leitor atento pode fazer as contas e chegar à constatação de que este escritor há muito passou dos trinta. Depois, porque falo de um período sombrio da história desta imensa e empobrecida pátria.
Mas num universo de volúpias catalisadas por um bocado de hormônio adolescente, pouco se conhecia da realidade dos fatos. Verdade que dispúnhamos do rádio, da imprensa escrita e da televisão. Tudo debaixo das botas da censura verde-oliva, que fique bem claro. Sem contar o valioso serviço que a telinha prestava aos governantes da época, conduzindo a massa humana, gente distraída, que se deixava levar pelos romances das novelas, pelo futebol e pelo telejornal tendencioso. Tudo apresentado com muito capricho por ela, que se esmerava para colocar esse povo no rumo determinado pelos algozes de então. Jornalões e revistas também davam a sua contribuição na sublime tarefa de pouco informar e pouco esclarecer.
Cinco décadas se passaram, contudo, e os veículos de imprensa aberta, sobretudo a televisão, continuam a manobrar a massa que, mesmo com o passar de tanto tempo, conquista de novas tecnologias e de uma frágil democracia, continua míope e distraída, se deixando levar pela fala bonita e carregada de uma beatitude que certamente depõe contra os velhos preceitos religiosos.
Entretanto, a despeito da ignorância que parece tatuada nessa gente, não resta dúvida de que uma boa parcela desse povo, devagar, vem abrindo os olhos carregados de uma sonolência que frequentemente a impele a voltar para a boa e velha letargia. Não consegue, por exemplo, perceber ainda que se vive neste país uma situação que beira a loucura, que é insano, dia após dia, olhar à volta e se ver cercado de patifaria, as mais variadas e autorizadas.
Mas é preciso celebrar os duzentos anos vividos de forma independente. Mesmo que para isso tenhamos que reinventar o conceito de independência. Até porque, há segmentos nefastos desta sociedade desigual que, de forma aviltante, cerceiam os direitos da pessoa comum. Há mesmo um furor social em se tolher a liberdade do ser humano, tirando dele o direito ao trabalho, à boa alimentação, a um teto, à educação… Fecha-se, pois, os olhos para o fato de que isso impede o semelhante de se tornar independente, provedor dos próprios recursos que promoverão o bem-estar de todos e, por conseguinte, da economia de um país que se diz independente. Independente e na miséria… soa meio contraditório isso.
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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