RETRATO DO MEU TEMPO

O ser humano engendra o ser humano. Isso é natural e faz parte da sua natureza desde tempos imemoriais. E, claro, dependendo das suas palavras e atitudes, enquanto ser adulto e pensante, ele pode engendrar sabedoria e amor no que acaba de chegar ou engendrar-lhe intolerância e ódio, tendo em vista seu pensamento e alma ainda verdes, em vias de amadurecer, carentes, portanto, de gestos que podem revelar-se numa ou noutra coisa.

Muitos dizem que algumas pessoas já nascem com índole propensa ao equilíbrio, enquanto outras, ao desatino. Concordo, uma vez que, nesses anos todos de estrada tenho esbarrado, aqui e ali, com criaturas que tiveram a mesma educação dos irmãos, mas que denotam comportamento totalmente diferente, como se não corresse em suas veias o mesmo sangue. Sabemos, logicamente, que pessoas são diferentes. Entretanto, existem personalidades oriundas do mesmo lar que se contrapõem escandalosamente no quesito caráter. Cito como exemplo um ser que esbanja amabilidade e simpatia, mas que tem um irmão insuportável aos olhos da maioria que o cerca.

Há de se admitir, todavia, que a influência da família é preponderante em qualquer caso. Se a conduta do pai ou da mãe, ou de ambos contribuírem para uma visão mais harmoniosa do mundo, certamente o rebento tenderá a seguir seus passos, sobretudo, quando falamos de gente que passa a vida mergulhada no vasto universo da leitura. Por outro lado, se a prole crescer sob a égide da ignorância e do mau-gosto, mundo este avesso à inteligência refinada, o que esperar do adulto que começa a emergir para uma sociedade violenta e desigual, desta que temos aqui em Pátria Tupinambá?

É sobre isso que tenho pensado ultimamente, já que não consigo deitar os olhos nas páginas do noticiário sem dar de cara com relatos diários, os mais variados, que escancaram a brutalidade que se tornou marca deste país nos últimos anos. Normalmente são cenas chocantes. Ás vezes, até me recuso a ler os detalhes, sob pena de ter as entranhas reviradas diante de tanta indignação. Fica mesmo a impressão de que tudo aquilo é parte da vida, dada a normalidade a que chegou a coisa.

 Vive-se, pois, aqui neste imenso pasto, que já foi mais verde, sob o jugo da força bruta, onde quem pode mais chora menos. Lugar em que as atrocidades com agressões verbais e físicas tornaram-se corriqueiras a ponto de provocar um bocejo ao invés de revolta em quem as presencia. E dou voz aqui a um jargão popular para dizer que é justamente aí onde mora o perigo. Quando a insanidade assume esse grau de normalidade, significa que o povo já está se habituando à loucura, e que começa a achar normal ter medo e se esconder.

Mentes atentas, no entanto, não aceitam o que vem de pronto, não curvam a cabeça em direção ao matadouro. Embora se trate de uma singela minoria, elas estão aí para fazer a diferença. E, oxalá essa diferença seja a salvação desta pátria, há muito entregue às baratas!

PROF.RODOLFO DE SOUZA

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