PAÍS DIVIDIDO

Em anos e anos de estrada, nunca vi ou sequer imaginei assistir a um espetáculo tão grotesco, tão improvável. Trato aqui, claro, de pessoas naturais do mesmo país, portanto, irmãs em sua nacionalidade, mas que subitamente despertaram para o ódio mútuo. Tudo por causa de ideias que convergem, de um lado, para a democracia, e de outro, para o obscurantismo. Algumas até se utilizam dos punhos para defender seu ponto de vista, ao se depararem com alguém com quem discordam ferozmente, só porque este teria se enveredado para a seara que privilegia a sensatez.

Divergências sempre existiram, uma vez que os pensamentos navegam por mares distintos, num universo de personalidades que, por vezes, despertam alguma semelhança pela afinidade que dividem, embora sustentem a diferença em outros aspectos. Tudo muito natural e compreensível dentro dessa imensa teia que é a comunidade humana.

Como no futebol, as torcidas vibram e caçoam dos derrotados quando da vitória do seu time. À exceção de casos extremos, tudo segue a normalidade dos bate-bocas nas rodas de amantes do esporte bretão. É assim que os corações devem bater, afinal, cientes de que não se trata de inimigo o torcedor do outro time, somente de um adversário.

Entretanto, o que vemos hoje é um país dividido. Não me refiro a torcedores deste ou daquele clube. Falo do campo político em que alguns hasteiam a bandeira brasileira, a nossa bandeira, para defender uma ideologia que segue no rumo do fascismo, que tanto mal fez a este mundo e que ora desponta como uma tendência global nefasta, deixando bem claro que não morreu com Mussolini. E logicamente o Brasil não está imune a esse mal. Provavelmente por não ter recebido, em quantidade suficiente, a dose protetora da vacina da educação é que parte desse povo se deixa enganar facilmente e se identifica com o que é violento, grosseiro, difamatório, vil…

Assistimos, a partir dessa constatação, ao nascimento, por meio de um governo extremista, de um comportamento, da mesma forma, extremista: de um lado, uma gente que odeia sobremaneira os opositores, e que, em dado momento, se viu estimulada e autorizada a exteriorizar sua fúria contra o outro, fazendo uso, inclusive, da força bruta. De outro, gente que destila o mesmo sentimento de amor às avessas àquele, embora não busque nas armas a solução para um problema sem solução. Procura, antes de tudo, distanciar-se dele, como meio de evitar o confronto, quase sempre inevitável.

É indiscutível, pois, que um fenômeno tem tomado de assalto esta vasta sociedade tupinambá, semelhante, inclusive, ao que ocorrera lá nas terras de Tio Sam, em que o trumpismo se contrapõe à liberdade eternamente cantada em prosa e em verso, num país que sempre se orgulhou de ser a maior democracia do mundo. Trocando em miúdos, temos aí dois lados de uma única moeda que, ao que tudo indica, deixaram de pertencer a ela, como se não tivessem sido cunhadas na mesma peça, na mesma casa da moeda, com o mesmo valor.

PROF.RODOLFO DE SOUZA

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