Repentinamente, uma terra devastada por mais de uma década de guerra se vê frente a frente com um terremoto de magnitude mortal. Dezenas de milhares, sobreviventes de batalhas insanas, sucumbem, então, ao sismo que veio das profundezas para tirar o sono de quem já não dormia. Muito se falou a respeito até que tudo começou a voltar para a normalidade do front doméstico. Os mortos foram contabilizados, e sepultado o que sobrou deles.
Dias depois, alguém da vizinhança, como forma de celebrar a volta ao normal daquela gente sofrida, resolveu presenteá-la com um show pirotécnico que deu cabo de mais alguns.
Noutro canto da Terra já se trata com naturalidade a presença macabra de artefatos que se deslocam pelo céu em alta velocidade, ceifando vidas e promovendo a dor por atacado. No começo, indignação para o mundo. Um ano depois, fato banal.
É esse, pois, o perfil do ser humano que animal algum seria capaz de compreender, mesmo que dispusesse da mesma inteligência. Se bem que, se os bichos tivessem sido dotados dela, é razoável imaginar que também para eles maldade seria acessório acrescentado no pacote.
Em pátria brasilis, como não podia deixar de ser, descobrimos também o ensejo pela perdição do outro no momento em que se constata, por exemplo, que este não partilha da mesma opinião.
E assim tem sido em toda parte deste mundo, desde que o homo, um dia, se descobriu sapiens, razão mais do que suficiente para crescer o desalento quando se pensa em mudança.
Deixemos de lado, entretanto, as dores de cabeça cotidianas, porque é carnaval! Apesar de que… A festa maior desta imensa pátria, que num canto enche de alegria o coração de muita gente, pode estar ausente no peito de outra, noutro lugar. Aquelas pessoas que se esqueceram da folia no momento em que um samba com outro enredo e uma bateria com outro ritmo encheu de pavor as suas vidas. A tempestade, pois, puxou a percussão estrondosa que derreteu a terra levando de roldão casas, carros e gente.
É culpa do fenômeno atmosférico, se defendem alguns dirigentes, para quem não há como prever sinistros que despejam muita água do céu e dissolvem os morros.
A relação entre guerra e desastre natural, reflexão proposta aqui com algum zelo, por certo que há de fazer questionar o leitor atento. Acontece que, nos abalos sísmicos, sobretudo, na região em destaque, em que alguém do poder teve a oportunidade de evitar conflitos armados e planejar as cidades com edifícios mais resistentes, mas deixou de cumprir o seu papel de proteger as pessoas de uma coisa e outra.
Em se tratando de enchentes que matam pobres que habitam as perigosas encostas, dinheiro destinado a obras para impedir tragédias certamente foi desviado para os bolsos de quem um dia se prontificou a cuidar dos interesses do povo.
Já as guerras são ações de poderes que defendem seus interesses, fazendo uso de armas. E, mais uma vez, quem sofre é o povo, que não esteve nas rodas de discussão. Uma gente que só comparece como ator principal nos massacres, oferecendo sua vida em prol de algo longe, muito longe do seu entendimento.
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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