PALAVRAS TORTAS

A professora foi golpeada pelas costas durante a aula, e morreu.

O começo deste texto não me parece inclinado a revelar-nos uma prosa com algum conteúdo literário, verdadeiramente poético. São palavras duras, afinal, que dão início a ele, como dura é a vida, em que a dureza dos fatos constrói a sua história.

A poesia, que normalmente dá expressividade à crônica, levando o leitor a se embeber da sutileza e da simplicidade das coisas, aqui se nos apresenta meio desajustada.

Entretanto, é preciso abordar o tema, e por meio da palavra, única ferramenta de que dispomos para ceifar um mal que nos assola nos dias de hoje: o extremismo que mata.

Palavra é, pois, instrumento poderoso, por meio do qual se é possível construir ou destruir. Provavelmente a arma do assassino tenha sido empunhada, porque alguma palavra torta um dia lhe virou o cérebro, templo sagrado onde a mente fez morada, e que, neste caso, usou o seu brilhantismo em favor da estupidez, da barbárie. Tudo por causa da palavra que, de alguma forma, teria estimulado a ação. Talvez fosse melhor que o homo que, um dia se tornou sapiens, nunca tivesse se apropriado dela.

E a tecnologia, por fim, facilitou a disseminação da palavra, principalmente aquela, cujo papel é tão somente promover a dor, física e espiritual. A comunicação em tempos modernos reverbera nos quatro cantos do mundo a sua voz que visa, sobretudo, manipular as mentes dotadas de pouca ou nenhuma inteligência.

Mas o pensamento, pela sua complexidade, também pode funcionar em favor da evolução da vida. Isso quando palavras de crescimento são espalhadas como pólen num campo florido em dia de vento forte. Aliás, é impressionante a força que tem a palavra! Penso nisso enquanto me deleito jogando uma porção delas nesta atraente folha branca, no silêncio da madrugada.

Gosto da palavra, sobretudo, a escrita. Reconheço a sua rebeldia, e tento domá-la e usá-la de forma a promover sentimentos, os mais diversos e, por que não, mais profundos.

Palavras, aliás, são sopradas nos ouvidos do ser humano desde o momento em que este ainda desfruta do aquático aconchego dos seus primeiros tempos. Podem vir na forma de canções, de expressões de carinho ou carregadas de ira, de lamento, de ódio. E tudo isso, seja uma ou outra coisa, alimenta o espírito do que acaba de desembarcar, antes mesmo que o precioso leite materno jorre fartamente em sua boca para nutrir o seu corpo. E, verdade seja dita, é o alimento do espírito o responsável pela construção da sua índole. Logicamente que cabe ao ambiente doméstico dar sequência à evolução do ser, desde que se utilize, obviamente, de boas palavras, uma vez que a mente, ainda verde, tende a assumir a forma do lar e daqueles com quem divide o espaço.

O assassino, objeto desta conversa, é somente um grão de areia nesse imenso oceano mental em que estamos mergulhados. Tantos, como ele, nasceram para viver em função do ódio, embora nem sempre empunhem facas ou armas de fogo para fomentarem o mal. A maioria faz uso da palavra, que, uma vez lançada, tal qual uma flecha, não volta. 

PROF.RODOLFO DE SOUZA

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