O PULO DO GATO

O pulo do gato se deu enquanto eu desenhava algumas ideias numa folha branca, por sinal, muito atraente. É possível até que o felino desejasse despertar-me de um pensamento que talvez lhe tenha soado um tanto estranho e perturbador. Nunca se sabe, afinal, o que vai na cabeça de um bicho astuto, talvez até mais astuto do que o bicho homem.

Na verdade, resgatou-me de uma reflexão acerca de acontecimentos vários que me tiram o sono dia a dia e me levam a deitar esta pena por sobre o papel, quem sabe, uma forma de livrar do desalento este coro um tanto calejado.

Acordou-me, pois, para o momento presente uma gata negra de pelos brilhantes e olhos insinuantes. Um animal que, meio diferente dos gatos que conheço, interage diretamente com o ser humano a ponto de deixá-lo imerso, mesmo que por instantes, num mundo de encantamento e fuga. Suspeito que ela busque a reação humana para talvez aprender um pouco mais sobre a raça que aqui a cerca de muito carinho. Ou apreendê-la, por que não?

Enquanto passamos frio em solo europeu, vejo notícias alarmantes sobre o calor no meu Brasil. Mas no velho mundo, desfrutamos do aconchego de camadas de roupas, das pesadas cobertas e também do olhar penetrante da gatinha.

Assim, afinal, é o espírito humano, se tomarmos como inspiração as variações do clima: ora entregue ao calor dos embates diários, ora propenso a calar seus ímpetos e voltar-se para o aconchegante universo interior em que tudo é possível, permitido e concebível.

E a gata me rodeia enquanto escrevo. Seu senso lhe permite picar, sem remorso, todo o papel toalha disponível, e seu olhar desafiador e sincero ainda desarma o humano que tenciona aplicar-lhe um pito pela travessura. É como se dissesse: “calma lá, sujeito! No mercado há muito mais”.

Em todo caso, sigo agrupando as ideias que têm relação com o calor dos acontecimentos mundo afora, em contrapartida ao gelo que habita o coração de gente que detém o poder que mata em nome da liberdade que não passa de pretexto para conquistar povos, economias e territórios. Fato que, diga-se de passagem, tem ocorrido desde quando o homo se descobriu sapiens, um dia.

O olhar vibrante da gata, então, contrasta com o olhar meio sem graça de quem já perdeu a esperança e sonha com o ano vindouro.

Por isso, a alegria da felina, seus pulos e disparadas, sua visão inconsequente de bicho para com as coisas dos homens, chegam a causar inveja. Sua impetuosidade não lhe permite, afinal, pensar no mau gosto que habita alguns corações, como um estilo de vida.

E a gatinha teima em se alvoroçar, indiferente às palavras que ainda tenciono colocar no papel, e que, em dado momento, ficaram por escrever, quando suas patas pisotearam o caderno. Parece entender e considerar que suas peraltices nos deixam leve a alma, e que o texto pode muito bem esperar.

Mas o calor de lá, o frio de cá, a parca inteligência de todos os lados a sabotar o bem viver, botam a nocaute o coração que deseja tão somente usufruir das coisas boas e belas desta vida como a companhia graciosa que divide comigo este espaço.

PROF.RODOLFO DE SOUZA

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