Há muito que ouço dizer que este é o país da esculhambação. Ouço e testemunho, logicamente. Tempos atrás, inclusive, soava cômico título tão debochado como a própria natureza do sujeito que aqui nascera, crescera e fizera cultura. Era fonte de inspiração para comediantes e compositores esse orgulho que sempre fez voltar para as bandas de cá o olhar do turista, indivíduo sério, habituado ao bem comportado mundo do respeito ao próximo e às regras. Tanto é que, meio cansado do entediante cotidiano, todo ele dedicado à seriedade destituída do sorriso farto, o viajante, às vezes, se despia do perfil sisudo e levantava voo para este rico solo, só para experimentar da farra no quintal do samba. Continue lendo “O APOGEU DA ESCULHAMBAÇÃO”
NOVAS AVENTURAS NO PRODIGIOSO REINO DO Ó
O antigo rei, aquele que deu tombo feio na rainha, recentemente foi conduzido ao cárcere por coisas feias que fez durante quarenta anos, segundo a gente que o prendeu. Pode ser. Se é o que dizem… Continue lendo “NOVAS AVENTURAS NO PRODIGIOSO REINO DO Ó”
NEM SÓ DE CARNE VIVE O HOMEM
Aborrece-me, por vezes, lembrar daquilo que me esforço sempre para esquecer: o lado peculiar do povo que tem pouca ou nenhuma afinidade com os livros. A ideia de ler e estudar soa estranha e de difícil compreensão para essa gente, uma vez que passa a vida escolar, quem frequenta ou esteve numa escola, travando longas quedas de braço com professores e seus, somente seus, assuntos. E o desdém para com as coisas relativas ao conhecimento, leva-os ao recinto estudantil somente para prestigiar os movimentos sociais que se dão por meio de longas e entusiasmadas conversas, gargalhadas e atitudes normalmente avessas à proposta pedagógica. Talvez esteja lá no berço a origem de tamanho descaso para com tudo que leva à expansão da inteligência, do pensamento refinado e crítico. Afinal, o que pode ensinar a um filho aquele que nunca aprendeu, que jamais experimentou as delícias da descoberta? Desanima, inclusive, imaginar que alguém assim, destituído de um fiapo de leitura, coloque no mundo outro alguém que crescerá carente de sabedoria simplesmente por não ter sido apresentado a ela no seio familiar. Há de lhe soar hostil, até, o modo educado do semelhante que se desenvolveu em outro ambiente, qualquer coisa mais intelectualizado. Contando ainda com a inconveniente possibilidade de se ver essa antipatia estendida até a carteira escolar e além, se desta não tirar proveito o aluno. Continue lendo “NEM SÓ DE CARNE VIVE O HOMEM”
FICÇÃO, POR QUE NÃO?
Assistindo aos noticiários e a alguns canais alternativos, cheguei à conclusão de que talvez fosse mais prudente para com a minha saúde buscar a ficção, deixando de lado a realidade que nos cerca. Seja com o livro em punho ou na produção deste, viver uma deliciosa aventura pode ser um antídoto contra a violência que nos engole dia a dia. Mundos paralelos onde tudo pode acontecer e, dos quais, podemos fugir num estalar de dedos, diante da ameaça iminente, parece uma ótima alternativa para se acalmar os nervos que ultimamente andam à flor da pele. Continue lendo “FICÇÃO, POR QUE NÃO?”
BREVE REFLEXÃO SOBRE AS COISAS DO BEM E DO MAL
Tenho andado meio desanimado ultimamente, amigo leitor. Talvez porque o mal dá indícios de estar vencendo o bem por longa vantagem no placar, é que, volta e meia, me pego cabisbaixo, com vontade de jogar a toalha. Contrariando o meu sentimento, no entanto, especialistas em assuntos bíblicos ou espiritualistas de um modo geral são unânimes neste quesito ao afirmarem que o bem sempre vence o mal. Serve como consolo, embora a dúvida continue a pairar quando olho ao redor. Não sei quanto a você, meu caro, mas a sensação é de desalento no instante em que tenho de engolir com casca e tudo a vitória daquele, para quem a violência é a fonte de todas as boas coisas. Violência sob todas as formas, contra tudo e contra todos é a bandeira pela qual lutam alguns. Não poucos. As trevas, afinal, nunca exerceram domínio tão grande sobre o mundo como em dias atuais. É o que penso e tomo como verdade. Não sei se está de acordo, já que é imenso número de pessoas que dormem anestesiadas enquanto a vida prossegue seu curso, aos trancos e barrancos… Continue lendo “BREVE REFLEXÃO SOBRE AS COISAS DO BEM E DO MAL”
AS PONTES DE SÃO PAULO
As pontes de São Paulo ameaçam ruir. A prefeitura parece preocupada com questões de maior relevância, uma vez que não envia equipes aos locais para ver de perto o estrago que o tempo sempre causa nas estruturas físicas, aqui deste plano. Incluindo a nossa, claro, igualmente sujeita aos caprichos dos anos que passam. Até porque, a despeito de seu peso um tanto mais leve, também desaba espetacularmente diante do olhar atônito no espelho, já não tão preocupado com o problema das pontes e suas rachaduras. Continue lendo “AS PONTES DE SÃO PAULO”
NAVEGAR É PRECISO
Não tem muito tempo, eu escrevi, aqui neste espaço, qualquer coisa que falava de jovens que deixam o país para se aventurar em terras estrangeiras, em busca da felicidade. Dizia, na ocasião, que, em número cada vez maior, eles partem com a cara e com a coragem para desbravar novos horizontes, perseguindo um crescimento, sobre o qual talvez nem tenham pensado com a devida seriedade. Continue lendo “NAVEGAR É PRECISO”
O TREM DA ALEGRIA DESCE A LADEIRA
E o pânico começa a desdenhar do sossego de quem viaja e percebe o trem da alegria desembestado, ladeira abaixo, pesado como a rocha de Niterói. Na verdade, desce sem rumo. Alguns fingem dormir para não olhar para a janela. Mas a vertigem, da qual somos acometidos nessa viagem rumo ao fundo do precipício, é sinal de que a velocidade só aumenta. Continue lendo “O TREM DA ALEGRIA DESCE A LADEIRA”
MANHÃ CHUVOSA
É cedo. Algo entre seis e quinze e seis e meia. Chove. Há pouco, debaixo das cobertas, no acolhedor ambiente familiar, tudo era silêncio e a impressão que se tinha era de que o mundo havia parado em função da chuva que encheu de penumbra a manhã da minha cidade. Mesmo assim, empurrei-me goela abaixo a força de vontade que, sem sombra de dúvida, me faltava naquele dia que só iniciava. Mas o frio e o barulho da chuva no telhado convidavam mesmo para o aconchego da cama. No entanto, ciente de que se tratava de um dia normal de batente e de que preguiça é pecado, pulei. Mesmo porque, desfrutaria do conforto de um carro na ida ao trabalho, peso na minha consciência de cidadão privilegiado que assiste ao sufoco da gente que enfrenta a rua com guarda-chuva que deve ser fechado e sacudido antes de se embarcar na condução abarrotada de pessoas molhadas e impacientes. Continue lendo “MANHÃ CHUVOSA”
FONTE DE INSPIRAÇÃO
Fonte de inspiração para um cronista que também dedica parte de sua vida à particularmente gratificante arte de ensinar, é observar o domínio que o lado obscuro da vida exerce sobre as pessoas. Logicamente que não desfilo incólume por esse mal, já que disputo com os demais habitantes deste planeta, um palmo de seu solo, um bocadinho de sua água e de seu ar, além de toda hipocrisia inerente ao seu mais sublime habitante. Mas eu me esforço e cobro de mim postura menos mesquinha com relação às coisas deste mundo. Talvez a consciência da condição humana ajude a pensar que é preciso muita força e presença de espírito para não escorregar e ser engolido pelas armadilhas que cada esquina nos reserva. Elas que fazem do homem torpe figura a perambular pela terra, sempre de olho em qualquer possibilidade de passar a perna no semelhante, e cheio de medo de levar, também, uma rasteira. Continue lendo “FONTE DE INSPIRAÇÃO”