Fonte de inspiração para um cronista que também dedica parte de sua vida à particularmente gratificante arte de ensinar, é observar o domínio que o lado obscuro da vida exerce sobre as pessoas. Logicamente que não desfilo incólume por esse mal, já que disputo com os demais habitantes deste planeta, um palmo de seu solo, um bocadinho de sua água e de seu ar, além de toda hipocrisia inerente ao seu mais sublime habitante. Mas eu me esforço e cobro de mim postura menos mesquinha com relação às coisas deste mundo. Talvez a consciência da condição humana ajude a pensar que é preciso muita força e presença de espírito para não escorregar e ser engolido pelas armadilhas que cada esquina nos reserva. Elas que fazem do homem torpe figura a perambular pela terra, sempre de olho em qualquer possibilidade de passar a perna no semelhante, e cheio de medo de levar, também, uma rasteira. Continue lendo “FONTE DE INSPIRAÇÃO”
FILOSOFIA DE PORTA DE BAR
— Ô Silva! Você tá sabendo da morte do Agenor?
— Que Agenor?
— Ué, o Agenor do bilhar. Quem mais?
— Nossa! Mas ele não era assim tão velho!
— Setenta e cinco. Continue lendo “FILOSOFIA DE PORTA DE BAR”
E O CIRCO CHEGOU!
Distinto público, o espetáculo vai começar! Ou melhor, já começou sem que eu percebesse, eu que sou povo e, por isso, distraio-me facilmente com qualquer bobagem. Ou talvez porque não me interesse mais espetáculos do gênero, é que sempre procuro voltar a minha atenção para outros assuntos de pouca ou nenhuma importância, veiculados pela mídia que se empenha em desviar o olhar da massa para imagens que devem permanecer na sua mente simples e, com isso, conduzir seus passos para os caminhos traçados por uma minoria que detém o comando e a grana da nação. Continue lendo “E O CIRCO CHEGOU!”
DANÇA DA CHUVA
E novamente o grande chefe branco faz a dança da chuva. Com seu cocar proeminente e cara de mau, cismou mais uma vez que, chovendo, será possível semear o que há de melhor no cotidiano de um país. Como todos sabem, esta água benfazeja, que o céu manda, é essencial para fazer germinar, além de plantas, a democracia em países onde o cacique considera que isso é verdura escassa na mesa do povo. Continue lendo “DANÇA DA CHUVA”
A CADA VEZ MAIS DIFÍCIL ARTE DE ENSINAR PORTUGUÊS
Há muito tempo decidi encarar o ofício de ensinar. Amo sobremaneira o meu trabalho que consiste basicamente em clarear a mente ainda verde, fazê-la amadurecer e dar a ela os primeiros passos no salutar exercício de pensar. E porque sou professor de Português, interpreto textos, os mais variados, junto com os alunos, para quem a escrita ainda soa complexa demais, condição responsável por aquela preguiça danada que bate no coro na hora de estudar. Sigo ao lado da garotada também na produção das temidas redações, na leitura dos trabalhos feitos, pedindo para que refaçam e consertem o que deixou a desejar… Eterna prática de releitura, reescrita e chateação que sempre dá muito o que falar. Insisto ainda na necessidade de se ler bastante para tornar rico o texto. O problema é quando me perguntam sobre o que ler… Antes eu sabia o que responder, hoje procuro rever meus métodos. Continue lendo “A CADA VEZ MAIS DIFÍCIL ARTE DE ENSINAR PORTUGUÊS”
TSUNAMI LÁ, MAREMOTO CÁ
Tsunami é aquele fenômeno chato que antigamente levava o nome de maremoto aqui em terra de língua portuguesa. Não sei bem o porquê de chamá-lo assim agora. Talvez porque a incidência seja maior em terras orientais, que inventaram esse nome, ou ainda por causa da mania que tem o povo tupinambá de sempre bancar o estrangeiro para se sentir mais importante. Acha mesmo que dá mais qualidade ao produto colocar-lhe nome internacional. Também funciona assim com estabelecimentos comerciais, e até um desastre como aquele, que, neste momento, protagoniza os noticiários, se torna mais pungente, mais chique, mais trágico quando se dá a ele a alcunha de país distante. Continue lendo “TSUNAMI LÁ, MAREMOTO CÁ”
O JOÃO QUE ERA DE DEUS
Um dia João achou que era Deus, e resolveu agir como tal. Só que João não era Deus, era homem, unicamente, homem. E, por ser homem, gostou da brincadeira, e não percebeu que sua mente era limitada, e que só poderia mesmo brincar. Nada mais. E, foi assim que sua genética, exclusivamente humana, rapidamente o convenceu de seu poder sobre os demais de sua espécie. E tanto se fingiu de Deus que passou a curar o semelhante, aquele que não fora contemplado com o dom divino concedido somente a ele. E a coisa tomou proporções tais que o tornaram, de fato, unanimidade, sempre procurado, reverenciado, amado… E não demorou, inclusive, para que João se sentisse absoluto, detentor de poderes a ele conferidos por… Ah! Por ninguém. Por ele mesmo, que se considerava Deus. Continue lendo “O JOÃO QUE ERA DE DEUS”
CULTO AO ÓDIO
Quando se experimenta uma dor na alma por questão qualquer, além dos remédios faixa preta, com alguma frequência busca-se nas prateleiras de livrarias e de hipermercados aqueles livros que ensinam a conquistar amigos, ganhar dinheiro facilmente, arrumar um bem-querer, mil formas, enfim, de ajudar o sujeito a não se entupir de antidepressivos ou dar cabo da vida. Há também as edições de cunho religioso que não deixam por menos ao levar consolo ao leitor cheio de amagura, para quem só resta aguardar um milagre. Sem dúvida, uma infinidade de métodos de tratamento à disposição. Continue lendo “CULTO AO ÓDIO”
VAMOS TODOS AO TEATRO
A plateia chora, a plateia sofre, se enche de expectativa, ri e grita, se espreme no empurra-empurra, toca no ídolo, se emociona por ter tocado no ídolo… A plateia é todo coração, coração mergulhado na esperança e também no medo de perder o espetáculo. Dá até para entender: a plateia é gente e, como tal, tem no peito um coração que palpita, vivo, vivíssimo, carregado de uma emoção que, uma vez canalizada, talvez até suprisse de energia todo um país. Este país. Continue lendo “VAMOS TODOS AO TEATRO”
SANDUÍCHE INDIGESTO
E o homem se pôs a brigar com o filho na lanchonete lotada. Continue lendo “SANDUÍCHE INDIGESTO”