E o fogo implacável não devora só museus e barracos, devora também matas, casas e gente. Pessoas sem recursos e pessoas com dinheiro suficiente para comprar o que quiser, exceto a condescendência do fogo que é imparcial. A natureza é mesmo assim, não se deixa subornar nem intimidar, tampouco faz acordos escusos. Na verdade, não dá lá muita importância para a natureza humana, sobretudo aquela de pensamento vil, cujo único propósito nesta vida é a conquista desenfreada de bens materiais que o fogo facilmente consome. Talvez perseguir esse objetivo, faz se sentir mais forte o ser de visão um tanto limitada e equivocada, que só consegue enxergar grana como fonte de todas as boas coisas. Continue lendo “O FOGO É FOGO”
CUIDADO COM AS FLORES
Está ficando complicado exercer o ofício que tanto prazer me dá. Não que eu tenha perdido o tino pela coisa. Isso não. Fato é que os temas, pelos quais costumo viajar, estarão, em breve espaço de tempo, restritos a singelas poesias que falam somente de borboletas e passarinhos, jamais das flores. Continue lendo “CUIDADO COM AS FLORES”
ABREM-SE AS CORTINAS
Em meio a uma onda de medo que, repentinamente, tomou de assalto esta pátria de faz de conta, um fiapo de esperança desponta hirto, soberbo como a papoula que foi capaz de levar a acreditar na vida os soldados que deram o sangue na primeira guerra mundial. Continue lendo “ABREM-SE AS CORTINAS”
A DIVINA TRAGÉDIA HUMANA
A menina do Iêmen morreu. Aquela da foto que abalou o mundo, sobretudo, as Nações Unidas. Ainda que só tenha abalado, logicamente. Sua imagem passou mesmo como um vendaval, e se foi, como todo vendaval se vai. Caiu no esquecimento como cai toda a tragédia que não diz respeito a ninguém, somente às vítimas. E as autoridades… Gosto em especial deste termo “autoridades”. Tem como definição mais acertada o retrado de um ser que habita soberano um plano bem acima deste em que mortais comuns se debatem na expectativa de dias melhores. Cabe àqueles, ainda, decidir sobre a vida destes, razão pela qual determinaram que a menina do Iêmen tinha que morrer de fome, lentamente. Continue lendo “A DIVINA TRAGÉDIA HUMANA”
A CARA DO MEU BRASIL
O artista esbanjou habilidade no monociclo, bem diante das fileiras de carros que aguardavam o semáforo esverdear. Além da vertiginosa altura do aparelho de uma só roda, ele exibiu destreza ao utilizar outros objetos que jogou para o ar, aparou com a boca e… Enfim, exibiu-se tão à vontade como se estivesse num picadeiro, rodeado de gente aplaudindo. Continue lendo “A CARA DO MEU BRASIL”
PALCO DOS LOUCOS
E o sono se foi bem antes do romper do dia. É nessas horas, aliás, que a mente inquieta costuma viajar de um ponto ao outro, e visitar fatos que, com alguma constância, permeiam a nossa existência. É, também, esse o momento que ela escolhe para correr em busca do inusitado, merecedor de algumas linhas. Como o caso do sujeito que parou o trânsito numa grande avenida, e se tornou o protagonista daquela tarde que se findava na cidade movimentada. Continue lendo “PALCO DOS LOUCOS”
OBSESSÃO CEGA
Sei que toda obsessão é cega, procure relevar. Uma delas, inclusive, diz respeito ao aspecto externo do corpo humano nesta época em que se cultua e se vende muito a estética perfeita. Perfeição segundo a ótica de quem negocia, logicamente. Revistas e demais publicações definem o perfil ideal que deve ser perseguido, porque é ele que coloca a imagem em destaque numa sociedade que privilegia somente as coisas, dentre as quais o físico, cuja silhueta nos devolve o espelho implacável e cheio de verdades. Malvado! Continue lendo “OBSESSÃO CEGA”
O ANIVERSÁRIO DA VAL
O trânsito está lento nesta noite em que me dirijo a uma pizzaria que por certo já ferve com a presença dos meus amigos que não se fazem de rogados quando o assunto é comemorar qualquer coisa. O que dirá, então, o aniversário da Val, acontecimento tão aguardado. Continue lendo “O ANIVERSÁRIO DA VAL”
LOJA DE CONVENIÊNCIA
O candidato foi golpeado por faca, segundo mostra a imagem feita por câmera que não haveria de se enganar. Seu semblante de dor e aflição demonstra também que o criminoso teria de fato levado até o cabo o seu intento de ferir o homem. Ou talvez tenha falhado, considerando a possibilidade de ter tramado a sua morte. Nunca se sabe. De qualquer forma, deixou claro que segurança não havia ao lado do indivíduo que se candidatara ao mais alto posto no comando da nação, e que sorria e acenava aos correligionários, do alto dos ombros de alguém. Continue lendo “LOJA DE CONVENIÊNCIA”
GENTE DO SEMÁFORO
O menino do semáforo chega para lavar o parabrisa. Nem insiste mais diante da negativa. Vai logo pedindo aquelas moedas, estrategicamente guardadas no console, para estas ocasiões. Continue lendo “GENTE DO SEMÁFORO”