E o pau come na Argentina. Por causa da reforma na previdência, o povo foi para a rua mostrar que não está mesmo disposto a engolir mais um gordo sapo que saiu direto do criadouro governamental para o seu prato. Logicamente que, como qualquer reforma proposta pelo poder, esta segue na contramão dos anseios de quem aspira à merecida tranquilidade que só a aposentadoria pode oferecer. Descanso justo para aquele que, há muito, viu o cabelo embranquecer ou escassear, a pele vincar, e todo o sistema sofrer os terríveis efeitos da lei da gravidade que tudo tende a botar no chão. Continue lendo “QUE VENHA A APOSENTADORIA”
SOLIDARIEDADE
O trabalho de um cronista, como se sabe, começa com a atenção sempre voltada para os fatos corriqueiros que preenchem o seu dia a dia, conferindo-lhe riqueza poética suficiente para rabiscar incansavelmente alguns quilos de papéis como esta folha sobre a qual despejo sem dó a tinta da minha caneta. Também, é preciso estar atento para não permitir que alguma inspiração fujona passe ligeira e lhe escape das mãos. Aquela que é a substância da qual necessita o escritor para transformar em palavras o que lhe vai no coração e que, não raro, faz morada também no peito do leitor. Continue lendo “SOLIDARIEDADE”
SONHO BOM
O homem deixou a casa lotérica com o papel da aposta nas mãos. Não me notou parado ali. Caminhava devagar, observando, embevecido, os números que lhe enchiam o coração de esperança tamanha, que era capaz até de imaginar a sua sequência igual à que partiria do globo para a mesa, onde as bolinhas que lhe transformariam a vida, seriam caprichosamente dispostas. Continue lendo “SONHO BOM”
VIOLÊNCIA NOSSA
Violência é, digamos, a prática que o ser humano começou a desenvolver lá nos primórdios de sua existência e que, sem dúvida, é a sua maior especialidade hoje, tendo em vista que vem aperfeiçoando, através dos tempos, os métodos que utiliza para agredir o semelhante, os bichos, a natureza, os costumes, os valores… É, portanto, o inventor da agressão à revelia, de graça. E se orgulha disso. Continue lendo “VIOLÊNCIA NOSSA”
E NOVAMENTE É VERÃO
Novamente é verão e o sol deixa repletos de vigor os corações que, até outro dia, andavam enfastiados com o mal tempo da desesperança. É fim de ano, época boa em que as pessoas celebram uma nova etapa que aqui, nestas paragens, é marcada pela presença do calor. Por mais que nos toque os ombros a ideia preconcebida do glamour que só a neve importada do hemisfério norte é capaz de produzir, é o clima quente que nos aconchega desde tenra idade, clima que no decorrer de nossas vidas torna-se o retrato das festas de encerramento de um ciclo e prenúncio de outro, aqui em solo Tupinambá. Aprendemos, por meio da imagem sub-liminar, que luvas e casacos são chiques e devem representar Natal e Ano Novo. Até algodão sempre fingiu ser neve nos pinheiros das casas tropicais de outrora. Mas é a camiseta cavada, símbolo dos nossos festejos, que acabou por inaugurar uma nova fase em que estão em moda as árvores prateadas, douradas, quentes. Continue lendo “E NOVAMENTE É VERÃO”
SOPA DE LETRAS
— Acontece que eu não gosto de português! Gosto de matemática, ciências, geografia, qualquer outra coisa, menos português. Continue lendo “SOPA DE LETRAS”
VIVA O FERIADO!
Parece que poucos países no mundo desfrutam de tantos feriados como o Brasil. Aos olhos de uma determinada camada da sociedade, a que dá as cartas, talvez denote exagero tanta comemoração, que por certo acaba por tirar do trabalhador o afã para o trabalho, sina para a qual fora criado, afinal de contas. Continue lendo “VIVA O FERIADO!”
LAMBANÇAS À BRASILEIRA
O ditador voltou a dizer que vai botar fogo na toca do grande urso branco, e este rosnou feroz. Pudera! Até eu, sujeito manso, nada afeito a grandes poderes, certamente que arreganharia os dentes diante de ameaça tão descabida. Em troca de quê cutuca onça com vara curta, o soberano da península? Se bem que, verdade seja dita: rosnar é a especialidade do urso, já que não perde a oportunidade de se manifestar pelas redes sociais, modernidade que lhe permite abordar qualquer assunto que possa causar uma polemicazinha, e espalhar para o mundo em tempo real. Ameaçado ou não, é de fato o seu passatempo predileto vociferar. Até porque, é ferramenta que funciona também para manobras políticas, nas quais é perito. Desconfia-se até de que tenha se diplomado aqui, neste vasto circo verde-amarelo.
O QUE SE FALA SOBRE O AMOR
Dia destes, numa roda de amigos, o papo desencontrado de sempre, repentinamente, convergiu para a agitada alameda do amor. Assunto que sempre desperta o interesse, já que os ânimos ficam acirrados quando as opiniões partem de gente que há muito perambula por este mundo e que durante quase todo esse tempo vem desfrutando da companhia de alguém que conhecera lá nos primórdios da juventude. E foi justamente aí, nesse frenesi de conversas altas e atropeladas, que ocorreu-me indagar sobre as paixões de cada um. Só para apimentar os ímpetos. Não demorou, então, para que um deles dissesse que escolhera bem profissão, especialidade e o amor com quem haveria de passar o resto da vida. Logicamente que não perdi tempo em chacoteá-lo no quesito casamento, uma vez que é constante o anseio do gênero masculino em fazer troça de alguém que se gaba de ter entregue a vida ao aconchego familiar, normalmente consagrado pelos sagrados laços do matrimônio. Mesmo assim, irresoluto, meu amigo de pouca data, mas de grande apreço, ratificou sua determinação de sempre adubar sua relação para que continue assim, cheia de alegria e prazer por ter ao seu lado a mulher amada.
COTIDIANO NEBULOSO
Tenho lido crônicas ultimamente. Aliás, desde que iniciei essa minha inebriante atividade de leitor, acho que me apeguei de verdade ao seu jeito, à sua cara. Desconfio até que se pareça um pouco comigo. E tempo considerável se passou desde que nos conhecemos, eu e ela. Foram décadas percorrendo as estradas que as suas palavras abriram. Continue lendo “COTIDIANO NEBULOSO”