E novamente o homem levanta a mão para ferir de morte o semelhante. Consegue, com isso, atingir o coração empático do resto do mundo que se apavora diante da nítida impressão de estar mergulhando de cabeça no enigmático final dos tempos, como apregoam algumas religiões. Logicamente que se isso acontecer, não sobrará gente para pensar no terror e preencher de medo o peito cansado. Nada restará, então, ao ser, cujo anseio maior se resume em promover a morte por atacado, senão o consolo da bala que lhe sobrou na câmara e que aguarda, sôfrega, o momento de ser conduzida à sua própria cabeça, pelo seu próprio dedo. Continue lendo “BANALIZOU-SE O TERROR”
BATALHA NOSSA DE CADA DIA
Minha amiga é professora do primeiro aninho. Missão difícil essa de conduzir o aluno ao limiar de uma vida repleta de letras, números e possibilidades. Por isso, tem todo o meu respeito o profissional que se aventura a introduzir a mente ainda muito verde nesse vasto mundo em que o conhecimento a aguarda para moldá-la. É ali, afinal, que deverá crescer um dia, e esse crescimento virá pela maturidade, aquela que nunca vem por meio da passagem do tempo, mas pela inquietante busca daquilo que fará desta mente entidade única, dotada de visão capaz de enxergar um pouco além do horizonte comum. E isso a professora sabe. E provavelmente por ter atingido essa fronteira, é que persiste resoluta. Continue lendo “BATALHA NOSSA DE CADA DIA”
DESCARADA PAIXÃO PELOS EDIFÍCIOS
Gosto de edifícios. Soa, inclusive, meio estranho, até constrangedor, admitir em público este amor. Sinto mesmo queimar o rosto por sentir que traio meu grande amor pelos bichos, pelo cheiro de mato e, sobretudo, a paixão pelas árvores. Mas o que há se fazer? Todo ser humano é assim, afinal: além dos defeitos natos evidentes e descarados, ainda guarda umas esquisitices que nem o próprio dono é capaz de entender. Continue lendo “DESCARADA PAIXÃO PELOS EDIFÍCIOS”
DIALOGANDO COM O FUTURO
Ei, você aí, leitor do futuro! Se lhe bate a curiosidade acerca dos eventos que antecederam em muito o seu tempo e que protagonizaram o meu, leia, pesquise, procure ir a fundo na questão e, depois de algumas horas imerso no assunto, constatará, aliviado, que está vivo por um milagre. Sim, verá que as pessoas de épocas passadas, que habitaram este planeta azul, quase mudaram a sua cor para um tom mais acinzentado. Era, afinal, a cor predileta da personalidade imbuída do sentimento de destruição. Isso! Destruição da terra, da vegetação, da água, do ar, de qualquer coisa que respirasse, dos valores… É… Por incrível que lhe possa parecer, aí nesse seu tempo de paz e tranquilidade, essa raça quase deitou por terra suas chances de nascer neste plano terrestre, meu amigo. Estupefato?! Eu sei! Os sábios, contemporâneos seus, pelo jeito, têm poupado de informações a juventude daí, com receio de que se contamine. É de fato muita responsabilidade. Eu os entendo. Apesar de que o meu pensamento de século vinte e um receia também que eles se contaminem ou tenham se contaminado, sei lá. Desculpe se não articulo bem o verbo. Lembre-se, amigo, de que eu falo com alguém que ainda não nasceu. Por isso coloco as coisas no mundo das possibilidades. Até o sossego daí é devaneio do qual não me posso furtar. De qualquer forma, é bom que saiba que a experiência de um coro judiado, como este que vos fala, é responsável por conceber assim vulneráveis sábios e não sábios de sua época. Continue lendo “DIALOGANDO COM O FUTURO”
É TEMPO DE DELATAR
O momento é de delação. Delata-se o pai, delata-se a mãe ou ambos, caso esteja em jogo uma compensação que normalmente vem por meio de um desconto nos dias de cadeia, o que não deixa de ser uma grande vantagem, afinal de contas. Oportunidade que não se pode menosprezar, sobretudo, se o coro do meliante estiver jurado, com poucas chances de voltar logo às ruas para gastar seu rico dinheirinho que por certo guardou em algum colchão que só ele sabe em que cama repousa. Continue lendo “É TEMPO DE DELATAR”
NÃO OUSO FALAR DE ESPERANÇA
Não vou falar de política ou de qualquer outro tipo de flagelo mundial. Penso que já cansou e que é melhor dedicar este espaço a algo que de fato compense uma leitura. Continue lendo “NÃO OUSO FALAR DE ESPERANÇA”
O DITADOR
O ditador quer botar fogo no mundo. É que a sociedade de lá de sua terra é muito fechada às coisas da atualidade, o que provavelmente tampe os olhos do homem que não sabe que já temos incêndios suficientes e que já castigamos por demasiado esta Terra. No entanto, ele gosta de disparar foguetes só para ver onde cairão e bater palminha. Quanto mais longe cair, melhor. E não pode prescindir de brincadeira tão divertida e apagar do rosto o sorriso de menino travesso que é dono da bola, faz biquinho quando contrariado e manda fuzilar o pusilânime que não gostar da brincadeira. Por isso, todos o aplaudem e gritam e saúdam e comemoram quando a coisa decola e vai parar lá no mar do vizinho rico. Continue lendo “O DITADOR”
AMPERAGEM SEMPRE EM ALTA
Eles adoram rir. Rir de qualquer bobagem é por certo o exercício mais praticado entre eles. Rir às vezes até tomar o fôlego, como se dizia antigamente, é sem dúvida alimento que supre de energia vital a sua alma jovem, propagando ao redor uma aura de constante alegria, como se a vida fosse assim, feita só de sábados. E pensar que tamanho sentimento já habitou o coração da gente que há muito o viu partir, ficando só na saudade. Gente que deixou a adolescência rumo ao funesto mundo da maturidade, e agora morre de inveja da garotada quando, de repente, um flash daquele momento de sua história comparece, sorrateiro, só para lhe roubar a paz de pessoa madura e experiente. Surge, às vezes, por meio de uma música antiga ou de um perfume… Sensação boa que a sabedoria divina, com o passar dos anos, se encarregou de apagar da memória dos coroas, e que aparece às vezes só para chatear. “Lembro como se fosse ontem” – contestam os turrões. Mas a verdade é que tudo aquilo que lhe balançou a alma um dia, se apagou.
E é justamente esse o jeito de ser de pessoa que acaba de deixar os cueiros e anseia, com uma ponta de medo, adentrar o bem comportado recinto adulto. Na verdade o que sente mesmo é pavor de ver cada vez mais rarefeita sua querida atmosfera adolescente, momento em que começa a vislumbrar o universo que sabe existir, mas que, sobre o qual, evita pensar. Procura, inclusive, dar as costas à conversa todas as vezes em que o assunto gira em torno da questão que os condena a deixar sua tão amada ilha de juventude, separar-se da turma e partir para a chatice da vida, propriamente dita. Estar, pois, diante da verdadeira face dessa vida é que os aterroriza. Afinidade com ela certamente que não há. Por isso, creio eu, o exagero na farra. Catarse de quem se vê diante do inevitável, do iminente ingresso num terreno hostil e sem graça.
Posso ver tudo isso em cada gesto, em cada olhar, em cada palavra daquele que vê com assombro sua estatura repentinamente alta, seus pés enormes, pêlos e voz num timbre qualquer coisa diferente do habitual. Tudo num estalar de dedos.
É claro que enquanto esse tempo não chega, aproveita a vida para estapear-se, para botar em dúvida a idoneidade moral do semelhante com impropérios impublicáveis, para prestar sincera homenagem aos familiares de uns e outros, detalhando seus atributos físicos, para praticar o salutar exercício da preguiça… E tudo isso dentro de um clima de muita, mas muita diversão.
Salve, pois, essa garotada barulhenta que esbanja inconsequência, cultua o corpo, ri de tudo e ainda não sofreu as desventuras que costumam azedar o humor daquele que há muito caminha por esta via de mão única, cujo barulho também já é presença no ouvido adolescente.
PROF.RODOLFO DE SOUZA
PARANAPIACABA
Em meio à desconcertante densidade verde, desponta, frágil e desamparada, uma vila com alguns casebres em ruínas, que deve abrigar uns poucos moradores. Lugarejo que é parte de uma grande cidade, uma cidade que dela se esqueceu, provavelmente porque ela esteja muito distante de sua enorme área urbana. Faz parte do território e é motivo de orgulho para alguns cidadãos que sequer a conhecem e nem sabem o porquê de tanto orgulho. Talvez reverbere em seu subconsciente algo sobre sua importância histórica. Mesmo assim, ela ficou esquecida por estar separada do centro urbano por imensa e exuberante região de Mata Atlântica, intransponível. É preciso, afinal, que se corte três outras cidades para lá chegar. Continue lendo “PARANAPIACABA”
POR CAUSA DELES
Por causa deles o precário sistema de saúde do reino nada tem a oferecer, senão a morte. Continue lendo “POR CAUSA DELES”