Adianto que Elvira, fonte de inspiração que me levou a escrever este texto, não é uma mulher. Elvira, personalidade em destaque aqui neste espaço, é tão somente o nome de uma escola. Ali de São Caetano. Sabe como é, caríssimo, todo cuidado é pouco quando se coloca no alto da página um título que por si só já sugere relação um tanto comprometedora com alguém do sexo oposto, o que pode, sem sombra de dúvida, meter este cronista numa saia justa dos diabos. Continue lendo “CRÔNICA PARA ELVIRA”
PELADA NO DOMINGO
Dizem que faz bem caminhar. Acredito que sim, tendo em vista o par de pernas e pés de que somos dotados, eu e você. Mas hoje, em especial, eu caminho para prestar homenagem à inigualável manhã de domingo. Esta que vem carregada de luminosidade, benéfica radiação que nutre o espírito com uma paz poucas vezes experimentada no dia a dia. Certamente que o pouco movimento de carros contribui para o benfazejo silêncio das ruas, que parece revigorar as energias. Continue lendo “PELADA NO DOMINGO”
INSENSATEZ
Busco a sensatez. Não a humana, porque já perdi a esperança de encontrá-la. Parece-me pouco provável que exista, afinal. Mesmo assim, busco alguma, qualquer que seja a sensatez. Busco-a incessantemente. Talvez esteja louco aos olhos do leitor que também segue em busca de uma maneira de compreender o coração aflito que se desespera à procura de algo que não sabe se de fato existe. Continue lendo “INSENSATEZ”
INVEJADA VIDA DE PROFESSOR
Maiara dorme durante a aula. A professora do terceiro ano cansou de exigir que Maiara acorde para acompanhar as atividades. É certo que a menina até que vai bem, já que se destaca no quesito inteligência e, por causa disso, ainda é capaz de discernir com certa clareza a respeito do seu papel na escola e da importância dela em sua vida. Papo cabeça que papai e mamãe despejam sem dó em seus ouvidinhos infantis, inocentes aparelhos saturados de ouvir saudáveis conversas sobre a moral e os bons costumes. Talvez por isso procure, vez ou outra, brindar a aula com um grama de sua atenção, gesto que deixa eufórica a professorinha, privilegiada que se sente por ver a aluna dedicar um tempinho de seu precioso sono só para satisfazer o desejo dela. Fiapo de alegria que a eficiente profissional do ramo da educação experimenta depois de ter se esmerado tanto numa faculdade sem saber que seu sacrifício seria dobrado, uma vez empregada. Continue lendo “INVEJADA VIDA DE PROFESSOR”
MEU ÍDOLO FICOU VELHO
Quando chega ao seu conhecimento que seu ídolo passou dos setenta anos, você que há muito mergulhou de cabeça nos cinquenta, perturba-se por se lembrar do quanto vibrou com suas canções e que isso já vai longe. Apesar de ser mesmo uma tendência esse susto, sobretudo, se o tal famoso pertencer ao sexo oposto, cujo sentimento, ainda mais forte por causa da atração natural, vem para lhe mostrar aquilo que o espelho se esforça por revelar, sem muito sucesso. É como se fosse uma projeção de si próprio o rosto enrugado do artista, cuja existência aqui nesta planície míngua a cada dia, tal qual a sua. Continue lendo “MEU ÍDOLO FICOU VELHO”
FESTANÇA NO ARRAIÁ
— Cumpade Dito, aproveitando aqui o calorzinho bão dessa fogueira, ocê num acha que anda meio quente o crima lá no planarto do arraiá? Ando inté meio preocupado com o rumo da carroça lá pra aquelas banda. E ocê? Continue lendo “FESTANÇA NO ARRAIÁ”
MANHÃ CHUVOSA
É cedo. Algo entre seis e quinze e seis e meia. Chove. Há pouco, debaixo das cobertas, no acolhedor ambiente familiar, tudo era silêncio e a impressão que se tinha era de que o mundo havia parado em função da chuva que encheu de penumbra a manhã da minha cidade. Mesmo assim, empurrei-me goela abaixo a força de vontade que, sem sombra de dúvida, me faltava naquele dia que só iniciava. Mas o frio e o barulho da chuva no telhado convidavam mesmo para o aconchego da cama. No entanto, ciente de que se tratava de um dia normal de batente e de que preguiça é pecado, pulei. Mesmo porque, desfrutaria do conforto de um carro na ida ao trabalho, peso na minha consciência de cidadão privilegiado que assiste ao sufoco da gente que enfrenta a rua com guarda-chuva que deve ser fechado e sacudido antes de se embarcar na condução abarrotada de pessoas molhadas e impacientes. Continue lendo “MANHÃ CHUVOSA”
A ENTREVISTA
Finalmente o grande xerife lá do reino do Ó conseguiu entrevista com o antigo rei do lugar. E olhe que não foi fácil! Claro que o monarca levou a comitiva, situação prevista e proibida, como proibido é tudo o que se convém proibir lá naquela imensa pátria. Continue lendo “A ENTREVISTA”
GREVE PORQUE É GRAVE
Confesso que extraí da internet o título deste texto, cuja inspiração para produzi-lo veio do fato de o país ter parado na sexta-feira. Claro que governo e mídia tendenciosa trataram logo de rebater a afirmativa como forma de difundir o desânimo e calar a boca das lideranças que se empenham em promover a luta pelo que não consideram justo nas medidas que visam reformar as leis trabalhistas e a previdência. Não que se deva apostar todo o minguado dinheiro na intenção dessas lideranças, mas que é preciso depositar um grama que seja de confiança em alguém, lá isso é. Até porque, o povo não tem a quem recorrer nem para onde fugir. Talvez arrumar um barquinho, bancar o refugiado e partir para o velho mundo, fosse uma saída, não sei. Continue lendo “GREVE PORQUE É GRAVE”
PRATICIDADE A SERVIÇO DO PAPO FURADO
E é assim noite e dia: um sem fim de belas mensagens que inundam o celular, fazendo-o vibrar de entusiasmo. Mesmo estando frustrado por ter sido retirado o seu volume de som, intenção declarada e hostil de calar a sua boca que, ao contrário, tocaria todo o tempo para avisar que alguém manda um fervoroso “bom dia” e outros dez respondem; também para trazer aquela nota de paz e lição de vida; um filme longa metragem de trilha sonora irritante, palavras de sincera beatitude… Passarinhos, cachorrinhos, gatinhos, borboletas e bebês, todos carregados de brilho e movimentos graciosos também comparecem para desejar paz, fé e otimismo, coisa que nem sempre é visto com seriedade pelo próprio sujeito que espalha a mensagem para o grupo. Sem contar, claro, a oração que deve ser repassada, uma forma de espantar o azar e trazer a fortuna que encherá de alegria o seu coração. Isso é o whatsApp, afinal. Rubem Braga e Drummond jamais sonharam escrever crônica sobre ele. Talvez até me invejassem. Continue lendo “PRATICIDADE A SERVIÇO DO PAPO FURADO”