Cronista é assim, está sempre de olho nos acontecimentos mais corriqueiros da vida, só para deles tirar proveito e, quem sabe, transformá-los na inspiração necessária para criar um texto bem bonitinho. Este que certamente preencherá o coração escritor antes mesmo de se apropriar do coração leitor. Não lhe falta, inclusive, oportunidade para bisbilhotar o terreno alheio e dele colher, por meio da conversa ouvida, assunto que venha a deitar no papel digital, armadilha estrategicamente disposta ali para bulir com o pensamento do incauto que se propõe a lê-lo. Continue lendo “ATÉ QUE A MORTE OS SEPARE”
O PIANISTA
O pianista encheu de música a noite do sítio. Talvez cause estranheza ao amigo leitor a presença de um piano numa localidade um tanto diferente do que se imagina seja o nicho de um instrumento concebido para grandes orquestras e palcos, que durante uma apresentação é capaz de manter quase sem piscar os olhos da assistência. Seleta plateia que, embevecida, acompanha a destreza do instrumentista que retira do piano notas e mais notas que se espalham pelo ambiente carregado de suntuosidade e poesia musical. Continue lendo “O PIANISTA”
FELIZ ANO BOM!
A multidão na praia aguarda ansiosa a meia-noite que não tarda. O momento se reveste de toda uma simbologia que também carrega em si uma realidade tão palpável quanto a areia pisada por todos. Talvez a força de tanto sentimento reunido tenha esse poder de tornar concreto aquilo que é símbolo. Continue lendo “FELIZ ANO BOM!”
CARLINHOS VAI À PESCARIA
Carlos Roberto não entende muito bem a lógica adulta que espalha ao seu redor figuras de alegres bichinhos como forma de carregar de emoção e fantasia a sua vida que ora se inaugura. Começa, inclusive, a suspeitar de que o convívio diário com porquinhos, vaquinhas, galinhas e peixinhos, não passa de pura balela, embora perceba também a importância dos felizes personagens que tornam mais alegres os seus dias, além de fazê-lo viajar na imaginação de menino que ainda sonha e desconhece a dureza deste mundo. Continue lendo “CARLINHOS VAI À PESCARIA”
VELHO AMIGO
Meu velho amigo se foi. Era jovem ainda e a notícia caiu-me com estrondo na cabeça. Estranha sensação de choque na madrugada, que me invadiu o peito e me deixou aquele gosto amargo de impotência diante do improvável, diante da fragilidade do fio que nos dá sustentação neste plano tão conturbado. Continue lendo “VELHO AMIGO”
A CHUVA
A chuva cai. Indiferente a todos os acontecimentos históricos ou recentes, felizes ou não, ela cai. Alheia à opinião do homem sobre isso e aquilo, à sua política, à sua determinação em promover a injustiça e a angústia, ela despenca volumosa, preenchendo o vazio do meu peito. E o vento, este formidável, ainda comparece para dar valiosa contribuição e deixar no coração este sentimento de fascínio pelo poder que se agiganta diante da presença humana. Entre trovões e relâmpagos que clareiam a noite, ela segue varrendo com força ruas e telhados, lavando e levando de roldão coisas, árvores e gente. Ela não se importa. Ela é soberana. Cai como se pretendesse mostrar ao mundo que nele não há quem possa deter o seu ímpeto que despreza leis, mazelas e emendas. Continue lendo “A CHUVA”
COM A PALAVRA, A JUVENTUDE
“Pensei que já tivesse visto de tudo nesta vida.” – bordão que acompanha o povo daqui e de outros cantos mundo afora, e serve para dizer daquilo que causa surpresa e, por que não, estarrecimento. Entretanto, uma vez dentro da internet, um riquíssimo universo de palavras e imagens se abre e se apressa em envolver-me na magia da informação, o que, por vezes, principia mexer-me também com as emoções, por causa do espanto. E foi justamente num passeio destes que deparei com um filme que tem como protagonista uma menina, aluna do nosso rico ensino médio, que decidira que era momento de se fazer ouvir na Assembleia Legislativa do seu estado. Ela que representa a comunidade estudantil e também o povo cego que faz do silêncio a sua bengala, armou-se de muita coragem e meteu-se na boca do leão para levar o seu recado. Imagine! Continue lendo “COM A PALAVRA, A JUVENTUDE”
CONVERSA DE BOTEQUIM
— É, choveu pedra na Rússia!
— Grande coisa – desafia o companheiro de balcão, brasileiro que se vangloria de tanta chuva de granizo a despencar em território nacional em época de verão.
— Mas nesse caso é diferente – insiste o outro. Não é pedra qualquer, de gelo, que se precipitou lá no território gelado. Se fosse, ninguém daria importância num lugar onde ela nem líquido voltaria a ser. É pedra vinda do espaço, da maior parte do universo! Daquele lugar sobre o qual pouco se fala, talvez pela falta de conhecimento ou mesmo porque é de gelar a alma de qualquer um a insignificância de nosso mundinho perante ele. Continue lendo “CONVERSA DE BOTEQUIM”
CADA VEZ MAIS DISTANTE O DIA DA VITÓRIA
No distante e vastíssimo reino do Ó, em tempos de reinado novo, o que se percebe é uma apreensão nos olhos incrédulos da imensa população que trabalha e trabalha e passa toda uma vida mergulhada até o pescoço no sacrifício e na correria sem, contudo, poder descansar um dia. Sentadinha no morro, matinho no canto da boca, bem que gostaria essa gente de apreciar verdinho tudo o que finalmente conquistou através de anos de luta. Farta colheita depois de décadas de plantio, por certo que lhe encheria o olhar. Continue lendo “CADA VEZ MAIS DISTANTE O DIA DA VITÓRIA”
DIA DE PROFESSOR
É dia do professor e assisto passivo à programação da TV que presta a sua justa homenagem àquele que dedica a sua vida ao extenuante ofício de ensinar. Logicamente que os teóricos, os que ainda respiram e caminham por esta vasta planície e também aqueles que do subsolo dela fizeram morada, mas ainda dão palpites, condenariam tais palavras, uma vez que, segundo eles, auxiliar o aluno na construção do seu conhecimento é o que se espera de um profissional da educação nos dias de hoje. Ensinar, transmitir o conhecimento, falar também sobre as engrenagens que movem esta sociedade, dos ventos que tocam esta vida, da experiência conquistada em décadas na estrada, além da sua própria matéria, tudo se configura inútil, bancário. Deve-se, pois, rever os métodos para adotar novas estratégias. Estratégia, termo mais utilizado na educação do que nas forças armadas, significa o que o professor deve inventar como procedimento, tão logo retire as mãos da cabeça diante da turba enfurecida que parte direto dos porões da sociedade para uma sala de aula, mas que merece todo amor e uma oportunidade de aprender para a vida melhorar. Continue lendo “DIA DE PROFESSOR”