Instalou-se recentemente numa sala de sexto ano, lá da minha escola, um frenesi, objeto de meu apreço, já que muito me diverte a criatividade quando o assunto é brincadeira. Além, claro, do pitoresco que o quadro sempre oferece e que costumeiramente dá margem a algumas linhas. Continue lendo “MELHOR IDADE”
COM A BOCA NO TROMBONE
O cavalo relincha, enquanto o jumento orneia. Termo um tanto desconhecido este que, pela falta de uso, deve até deixar o dicionário, qualquer dia destes. Afinal, quem se lembra de que um burro, jegue ou qualquer um da espécie, tenha lá sua voz? Mas tem. E quando bota a boca no trombone, é para se fazer ouvir. Claro que moradores de áreas urbanas, sobretudo, dos grandes centros, por serem incapazes de perceber a diferença entre este e os demais de quatro patas, sequer se lembram de que ele fala. Fala, obviamente, a sua língua, principalmente em ocasiões em que é preciso dar um basta na aporrinhação. Continue lendo “COM A BOCA NO TROMBONE”
COLHE-SE O QUE SE PLANTA
Mais algumas explosões sacudiram os nervos de Tio Sam no último fim de semana. Trata-se, todos sabem, de uma síndrome do mal que teve origem em passado não muito distante em que um país do Oriente Médio recebera a visita nada amistosa da cara amarrada de Tio Sam, em pessoa. Estava de olho, o gatuno, no precioso óleo daquele. E, para tanto, se armou, o tinhoso, de grosseiro argumento só para justificar ao mundo sua intenção sórdida de tomar de assaltoa terra do outro. Coisa feia! Dizia que o ditador daquele lugar escondia na manga do paletó armas químicas prontas para destruir o mundo. Coisa de novela mexicana que os povos não engoliram muito, não, embora ninguém tivesse peito para contestar sua majestade. Continue lendo “COLHE-SE O QUE SE PLANTA”
O MENINO DE ALEPPO
Enquanto o mundo ainda celebra as conquistas olímpicas do último evento, lá na Síria eles continuam a ganhar ouro no tiro. Tiro de morteiro, de fuzil, das bombas que os aviões deixam cair inadvertidamente, tiros que partem da mente insana daquele que insiste na ideia de que o poder lhe fora destinado por obra divina, razão mais do que suficiente para que ninguém tente tomá-lo. E, no momento em que a coisa não funciona assim, com o vento soprando a seu favor,o tirano promove a morte por atacado. Só para mostrar quem manda. Determina ainda a destruição da cultura, dos costumes, da vida de todo um país, arruinados num estalar de seus longos dedos sujos, logo mais, descarnados. Continue lendo “O MENINO DE ALEPPO”
OLHA LÁ O VOVÔ
— Mamãe, olha lá o vovô!
— Não, não é o vovô, filho.
— É sim, mamãe! É ele sim!
— Não é não, filhinho. Venha!
— Mas mamãe, é o vovô, ali naquele carro.
— Já disse que aquele não é o vovô, e não fique aí parado, menino! Venha logo. Olhe, seu pai já vai lá adiante. Vamos. Continue lendo “OLHA LÁ O VOVÔ”
O ESCRITOR (A MANUEL FILHO)
O escritor, embora dotado de imaginação ímpar, não é capaz de imaginar a barbaridade de empenho do qual se valeu toda uma escola que programou recepcioná-lo e prestar-lhe homenagem. Vestiu-se, aquela gente, de entusiasmo nunca visto para se dedicar à festa que preparara com capricho, todinha ela para o escritor. Uns trabalhavam nas alegorias, outros ensaiavam dança e canto para que tudo resultasse certinho, sem nenhuma possibilidade de ocorrer um mico. Continue lendo “O ESCRITOR (A MANUEL FILHO)”
O DIABO DO REGIME
O ditador quer explodir o mundo. Como se fosse o dono da bola, tenciona mesmo acabar com o jogo antes que o tempo regulamentar se esgote. Há, inclusive, uma forte suspeita de que deseja ver deserta a várzea só para exercer o seu poder sobre a bola que lhe vai debaixo do braço e sobre o nada bem à sua frente. Continue lendo “O DIABO DO REGIME”
OLIMPÍADA MUDA A CARA DO REINO
Fala-se por aí que no distante reino olímpico do Ó todos os acontecimentos deixaram de acontecer em função dos jogos. E ainda, que o povo feliz se farta com toda a festa, sobretudo, por saber que o país deixou a crise econômica, pela qual vinha passando, e que todos os demais problemas simplesmente deixaram de ser problemas, preocupados que ficaram em dar passagem aos atletas. E que até na longínqua província potiguar, a respeitada comunidade do crime, em reverência ao evento, procurou conter seus ímpetos incendiários e sossegou. Teria ainda, num gesto tocante, cedido os fogos para o magnífico show pirotécnico da abertura das competições. Continue lendo “OLIMPÍADA MUDA A CARA DO REINO”
OS AMIGOS
Lá estão eles na porta do bar. É ali, afinal, o lugar dedicado, antes de mais nada, aos amigos. O templo do bate-papo, da descontração… Continue lendo “OS AMIGOS”
DOCE HORIZONTE
A menina transita pela praia e pela adolescência que, não demora, tem vencido seu prazo de validade. Carrega uma espécie de sacola dependurada nos ombros e nesta, feito bicho marsupial, leva uma criança, provavelmente o filho. Ostenta o pequeno como um troféu que recebera desfilando simpatia e graça pela comunidade. Continue lendo “DOCE HORIZONTE”