Era uma vez, num longínquo reino encantado, uma rainha má que desejava muito permanecer no trono, embora seus súditos considerassem meio desastroso seu reinado e quisessem a sua cabeça. Cortar a cabeça, que fique bem claro, era maneira antiga de falar que tinha aquela gente quando se referia a destituir do cargo pessoa que vinha demonstrando certa ineficiência no trabalho, prejuízo para a empresa ou para a coroa. E, metido que era, aquele povo tratou logo de inventar o exclusivo e pomposo nome de impeachment para se mandar para o olho da rua pessoa que ocupasse o cargo mais alto da nação. Termo nada condizente com o idioma local, é certo, mas que servia bem. Até soava imponente, mesmo que usado para se referir ao ato nada elegante de se chutar o traseiro do outro. Continue lendo “E SOBRARAM SÓ AS POMBAS”
D.ALBERTINA VAI AO MÉDICO
D.Albertina já estava acordada quando alguém entrou no quarto. Desejava mesmo não ter despertado, hoje e nunca mais. Sua rotina não lhe permite sentir, uma pontinha que seja, de amor por esta vida. Ama sim, a outra, a dos sonhos. Aquela que visita todas as vezes que o sono é chegado e muito bem vindo. Pode ser estranho, encantado, bizarro, o diabo, mas compensa estar ali onde uma infinidade de lugares e situações a fazem participar intensamente da vida, como fizera nos bons tempos. E, naquele espaço exclusivo, também não é submetida ao constrangimento e à dor de ver um ente querido dedicar seu precioso tempo e paciência para auxiliá-la nas tarefas mais elementares. Continue lendo “D.ALBERTINA VAI AO MÉDICO”
A JANELA
Lá fora o sol de setembro brilha, enchendo de luz a casa e a vida que segue implacável. O ano, sempre muito veloz, trilha o seu caminho como se fosse um trem. Não é de hoje que carrego essa mania de imaginar um trem quando penso no ano passando, determinado, preciso. Não há mesmo como detê-lo nem como impedir a mente de pensar em sua força e na voz férrea de seus trilhos, que me impelem a isso. Continue lendo “A JANELA”
VIDAS GIRATÓRIAS
Houve um tempo em que o cidadão dirigia-se ao banco para movimentar a conta bancária, honrar as prestações, pedir um estrato para conferir o orçamento apertado, um empréstimo, saldo, essas coisas. Como hoje, entrar e sair de agências era um tanto corriqueiro, como corriqueiro era se deparar com a incômoda presença de outro correntista que ao invés de usar cheque para sacar, sacava logo uma arma, normalmente de grosso calibre, que apontava para a cara do gerente, do caixa ou atendente, exigindo a grana que ali estivesse, fosse no cofre, na gaveta ou no bolso. Tudo ao seu alcance, sem perda de tempo! Silenciosamente, então, o cliente, seguindo as instruções, depositava no piso frio o rosto repleto de medo cinematográfico, enquanto a curriola deitava e rolava no dinheiro fácil. A polícia aparecia depois, bem depois. Continue lendo “VIDAS GIRATÓRIAS”
COM A BOCA NO TROMBONE
Enquanto o cavalo relincha, o jumento orneia. Termo um tanto desconhecido este que, pela falta de uso, deve até deixar o dicionário, qualquer dia destes. Afinal, quem se lembra de que um burro, jegue ou qualquer um da espécie, tenha lá sua voz? Mas tem. E quando bota a boca no trombone, é para se fazer ouvir. Claro que moradores de áreas urbanas, sobretudo, dos grandes centros, por serem incapazes de perceber a diferença entre este e os demais de quatro patas, sequer se lembram de que ele fala. Fala, obviamente, a sua língua, principalmente em ocasiões em que é preciso dar um basta na aporrinhação. Continue lendo “COM A BOCA NO TROMBONE”
TEMPOS DIFÍCEIS
Pedir uma pizza de calabresa com a descabida intenção de solicitar ao atendente que caprichasse na cebola, foi gesto um tanto comum em tempos idos. Em dias atuais, contudo, esse costume vem perdendo lugar para o bom senso que manda conter os ânimos e buscar a cebola que se encontra guardada, quietinha, na prateleira doméstica, caso sinta corroer-lhe a alma o ultraje de ter de se contentar com os fiapos que vieram na sua pizza. A vida dura com o dinheiro curto é mesmo assim, tende a obrigar o comilão a ter bons modos e adotar novo comportamento se, de alguma forma, lhe for importante continuar cultivando a amizade com o dono da pizzaria. Continue lendo “TEMPOS DIFÍCEIS”
POBRE CHEFA!
A chefe do executivo anda meio velha, coitada. O semblante carregado denuncia a excessiva carga tributária e demais cargas que lhe pesam nos ombros. Dá, inclusive, a nítida impressão de estar amargamente arrependida de um dia ter se lançado de cabeça na arriscada aventura que é a presidência desta ilha da fantasia. Continue lendo “POBRE CHEFA!”
RIR PARA NÃO CHORAR
Na escola pobre da periferia, Érika lidera. Não conhece a liderança política, a empresarial, a comercial, a marginal, mas lidera. Continue lendo “RIR PARA NÃO CHORAR”
REFÉM DA TECNOLOGIA
Estão desaparecendo as utilíssimas placas com os nomes das ruas, nos bairros das cidades. Antes os moradores, principalmente das esquinas, possuíam aquelas azuis, consultadas todas as vezes em que alguém, vindo de outras paragens, necessitava saber de sua localização, se estava no rumo certo, se havia encontrado o endereço, se um tal trecho da via pertencia à mesma ou se já teria outro nome, enfim, uma série de dúvidas que só o letreiro com a marca registrada do logradouro era capaz de elucidar. Continue lendo “REFÉM DA TECNOLOGIA”
QUER UM CONSELHO?
Iniciei o meu serviço no editor de texto do computador. Tempos modernos estes em que a tecnologia é ferramenta indispensável em nossa vida. O mesmo diria, estou certo, o sujeito escritor que, habituado à pena, se vira, repentinamente, diante da esferográfica ou da surpreendente máquina de escrever. Limiar de uma nova era em que a cibernética começava a reinar soberana. Continue lendo “QUER UM CONSELHO?”