SER NADA SOCIAL

É manhã e, preso no engarrafamento, um homem, morador de rua que vem pelo passeio, me chama a atenção. Leva-me, o sujeito, a fazer algumas considerações e conjecturas a respeito da vida de quem, como eu, corre atrás do sucesso. Sucesso no trabalho, consequente garantia de dinheiro maior; sucesso no amor, certeza de cama melhor; sucesso na vida social, sinônimo de bajulação. É preciso, pois, que resulte em sucesso, qualquer coisa em que se bote a mão. Muito natural! Continue lendo “SER NADA SOCIAL”

SOMBRAS NA NOITE

O rapaz de pouco mais de vinte anos, trabalhava no setor de frutas do mercado. Dedicado, procurava manter abastecidas as bancas para que a freguesa pudesse escolher, em meio à grande variedade, sempre produtos fresquinhos. Cuidava de tudo como se aquilo fosse seu e preocupava-se em nunca deixar nada podre ou passado, só mercadoria boa. Dizia que era preciso estar de olho. Ganhou, inclusive, a simpatia da dona de casa que escolhia comprar ali justamente por causa da dedicação do profissional. Orgulhoso, tocava sua função com seriedade para que tudo corresse bem naquele que era o seu espaço, o local que ele comandava com carinho. Formação acadêmica não tinha, tampouco chegara a esquentar um banco escolar. Sua parca leitura fazia dele homem de personalidade até rude, embora boa praça. Continue lendo “SOMBRAS NA NOITE”

O CERNE DA PREGUIÇA

Há mesmo muito de preocupante nesta sombria atualidade, cotidiano de quem pula cedo para o pão batalhar. Uma única olhadinha no jornal é suficiente para se perder a paz com notícias e mais notícias que fomentam o desânimo. À nossa volta também é possível perceber movimentos estranhos e olhar de soslaio de quem desconfia até da própria sombra. Por toda parte, a violência, de tocaia, espreita e aguarda o que vem distraído e que, sem dúvida, passará bem perto da sua enorme garganta. É o crime em todas as suas facetas, roubando das pessoas o direito à vida, à dignidade. Com arma, sem arma, com gravata, de avental branco… De roupagens e métodos variados se reveste, enfim, a brutalidade neste país de faz de conta. O povo, coitado, já não a enxerga mais. De tão comum, o coisa ruim ficou invisível. Talvez por isso o conformismo já tenha se tornado, tal qual samba e futebol, parte da cultura dessa gente que tudo que sabe é que a situação vai mal. Continue lendo “O CERNE DA PREGUIÇA”

BREVE REFLEXÃO SOBRE… O QUE QUISER

Época boa, aquela das festas de fim de ano, momento ideal para se lavar a alma das sujeiras e do azar que devem ficar para trás. Mais oportuno ainda, nestes dias, é exercitar a mente e refletir um pouco. Isso mesmo, refletir, pensar a fundo acerca de algo. Neste caso, o fio tênue que dá sustentação à vida do ser aqui nesta terra de celebrações, é justamente o ponto crucial que tem desviado o meu pensamento de qualquer outro tema. Andei mesmo cheio de divagações sobre o súbito, o repentino ato de morrer. Continue lendo “BREVE REFLEXÃO SOBRE… O QUE QUISER”

A ASSUSTADORA PASSAGEM DO TEMPO

Minha prima resolveu dar uma festa para comemorar seu aniversário e convidou-me, feliz, para a celebração. Prima que eu vi nascer! Logicamente que “vi nascer” é força de expressão antiga de que me faço valer, aqui neste espaço, e que muito me auxilia quando pretendo reforçar a ideia do tempo transcorrido desde que fiquei sabendo de seu nascimento. Diga-se de passagem, nem idade eu tinha para discernir acerca do evento. De qualquer forma, assustei-me ao ouvi-la dizer que comemorará cinquenta primaveras. E como isso tem causado incômodo neste peito cansado! Tem me espantado de verdade. Espanto, termo que, aliás, melhor se encaixa neste contexto, uma vez que tenho pensado com seriedade sobre o assunto todas as vezes em que, numa roda de bate-papo, a conversa gira em torno da idade madura de parentes próximos, garotada que conheci bebê. Difícil, então, conceber coroa a menina que eu me habituei a enxergar menina.  Continue lendo “A ASSUSTADORA PASSAGEM DO TEMPO”

SEM ÁGUA NÃO DÁ

Não chove. Somente uns poucos pingos que a misericórdia divina lança cá para baixo com o conta-gotas. E então o tempo fica assim, seco de verdade, tal qual clima de deserto. O que será de nós, pobres seres feitos de água, sem água?! O governador, detentor de todo o poder a ele conferido pelo voto, prometeu que vai mandar chover. Só não sabe se São Pedro lhe dará ouvidos. Isso porque tem consciência, embora não admita, de que o santo não é brasileiro e, por conseguinte, inoculado contra o mal da conversa fiada. Tampouco lhe apraz, justo que é,  propina de qualquer monta. E, no andar da carruagem, político ou padre, não há quem convença o intercessor que anda irredutível e promete não amolecer nem mesmo em nome de sua amizade com São Paulo. Continue lendo “SEM ÁGUA NÃO DÁ”

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