Lembro-me de que, ao final das eleições de 2018, escrevi uma crônica que derramava, aqui neste espaço, toda a minha amargura por me saber integrante da massa que acabava de colocar no poder a representação do mal. Não que eu tenha sido eleitor da coisa. Refiro-me ao fato de ser tão brasileiro quanto aqueles que digitaram o número nefasto na urna. O número que fez este imenso país caminhar na contramão do bom senso por quatro longos anos.
Continue lendo “DE VOLTA À VIDA”E A LUTA CONTINUA
Uma parcela da população desta imensa pátria, metade dela talvez, demonstrou muito empenho, noutro dia, na busca por um antídoto que pudesse livrar do veneno que se espalhou em suas veias a democracia. É por causa do envenenamento que sua saúde frágil vem minguando, afinal. O pleito recente, que teve lugar em todo o território deste imenso rincão, serviu como uma tentativa de salvá-la, tendo em vista o risco de morte que corre. Essa gente se utilizou, pois, de um remédio, de eficácia incontestável, para que seu bem-estar fosse rapidamente restabelecido. Havia, inclusive, muita expectativa a pulsar no peito desse povo, que vislumbrava a saída do leito hospitalar daquela que deveria reinar saudável em toda pátria, em todo o mundo.
Continue lendo “E A LUTA CONTINUA”RETRATO DO MEU TEMPO
O ser humano engendra o ser humano. Isso é natural e faz parte da sua natureza desde tempos imemoriais. E, claro, dependendo das suas palavras e atitudes, enquanto ser adulto e pensante, ele pode engendrar sabedoria e amor no que acaba de chegar ou engendrar-lhe intolerância e ódio, tendo em vista seu pensamento e alma ainda verdes, em vias de amadurecer, carentes, portanto, de gestos que podem revelar-se numa ou noutra coisa.
Continue lendo “RETRATO DO MEU TEMPO”O QUE FOI FEITO DA INDEPENDÊNCIA?
E o Brasil completa duzentos anos de independência. Um número bem redondinho. Estranha, aliás, essa mania que têm as pessoas de celebrar aniversários redondos, como se os outros não tivessem a mesma importância. E, por falar em independência e números redondos, lembro-me perfeitamente do festão que o governo militar promoveu para comemorar o sesquicentenário. Lá se vão cinquenta anos, também redondos. Diga-se de passagem, eu nem deveria estar comentando aqui período tão marcante da minha vida. Mas eu vivia, naqueles dias, todo o esplendor da minha adolescência! Mesmo assim, não considero de bom tom revelar com tanto entusiasmo esta saudade: primeiro, porque o leitor atento pode fazer as contas e chegar à constatação de que este escritor há muito passou dos trinta. Depois, porque falo de um período sombrio da história desta imensa e empobrecida pátria.
Continue lendo “O QUE FOI FEITO DA INDEPENDÊNCIA?”O PÁSSARO
O pássaro belisca a fruta na árvore. É fim de tarde, e o barulho estridente da sala de aula lhe é indiferente, mesmo estando meio próximo da janela o seu galho.
Continue lendo “O PÁSSARO”E RUFAM OS TAMBORES
O bufão se apropria da mente insana para promover a festa que, segundo o seu entendimento, hasteará a bandeira da liberdade para o seu povo. Não explica, todavia, que tipo de liberdade terá para oferecer a essa gente, caso leve a cabo o seu projeto de tomada de poder na marra.
Continue lendo “E RUFAM OS TAMBORES”O EVANGELHO SEGUNDO OS FARISEUS
Antigamente, quando se ouvia um sujeito que entendia do riscado discorrer sobre o evangelho, o coração era logo preenchido com sentimento de amor ao próximo e mansidão. Isso, porque se falava de paz e justiça em um mundo governado pela felicidade que vinha desse amor.
Continue lendo “O EVANGELHO SEGUNDO OS FARISEUS”DAS ENTRANHAS DO INFERNO
Um fenômeno se abateu sobre este vasto e empobrecido rincão nos últimos anos. Falo de um tipo de personalidade… isso mesmo, algo implícito na figura humana, que ganhou voz e poder sobre as criaturas pacatas e distraídas com as quais divide este espaço e este ar. Ar, diga-se de passagem, trazido das entranhas do inferno, que, carregado de enxofre, tirou de seu sono letárgico as hordas que jaziam aqui neste plano à espera de um líder que deixasse seu reduto obscurantista para atraí-los e seguir na sua dianteira.
Continue lendo “DAS ENTRANHAS DO INFERNO”MADEIRA FÁCIL, SOBREVIVÊNCIA DIFÍCIL
No começo, assassinavam árvores para vender a sua madeira. Na sequência, vinha o aniquilamento das plantas menores que estavam no caminho das toras arrastadas. Quanto aos animais que habitavam galhos e troncos, não lhes restava alternativa senão procurar nova morada.
Continue lendo “MADEIRA FÁCIL, SOBREVIVÊNCIA DIFÍCIL”CAMINHO DE PEDRAS
O homem caminha com dificuldade pelo passeio movimentado da cidade fartamente urbanizada. A tarde cheia de sol parece não lhe inspirar qualquer sentimento bom. Seu semblante de dor revela isso, afinal. Duas muletas o auxiliam na angustiante tarefa de descer o pequeno degrau que conduz a nível inferior da calçada. Terreno acidentado é empecilho ainda maior quando as pernas já não funcionam a contento, quando a idade chega e traz com ela as doenças que cerceiam o apetite pela vida.
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