Este ano começou recheado de acontecimentos. Até o papa achou de renunciar para dar mais tempero aos fatos. Continue lendo “APOSENTADORIA PRECOCE”
A PRESSA É MESMO INIMIGA
Pressa é isso, o tipo de sintoma que só se manifesta para alfinetar os nervos, torná-los reféns de um poder egoísta que reserva para si toda a atenção que deveria ser dividida com outros assuntos. Não sobra para eles, no momento em que se está atrasado, nem uma única migalha, mesmo quando se tem a consciência de que há muito mais nesta vida do que aquele foco para o qual se dirige o pensamento aflito. Claro que não resolve refletir aqui com tamanha profundidade sobre tema tão delicado, até porque é impossível domar a tensão somente por pensar que não se deve se submeter a ela. Na verdade, torna o apressado cego e surdo para qualquer outro fato, mesmo que lhe envolva diretamente. Tudo que se concebe normalmente como real cai numa outra dimensão, alheia ao entendimento, um mundo paralelo que não nos diz respeito naquele instante de desespero, que pode ser breve ou longo. Corremos sempre com o coração na mesma velocidade, numa disputa ferrenha contra os ponteiros do relógio, rápidos como nunca. Só o ponto para o qual nos dirigimos é possível visualizar em momentos de pressa suprema. Fenômeno que nos rouba, nos destitui de todo o direito de pensar em algo mais que não o tempo que voa enquanto andamos, lentamente. Continue lendo “A PRESSA É MESMO INIMIGA”
SOL NOSSO DE CADA DIA
Ensinava a importância de se apanhar todo o sentimento contido na crônica que o artista caprichosamente escreveu para nos capturar pela inteligência aguçada. Falava do Rubem Braga e sua habilidade em conseguir aflorar na pessoa que lê a sensação de dividir com ele o momento fotografado, impresso no papel por meio de palavras. Continue lendo “SOL NOSSO DE CADA DIA”
ESTUDANTE NOTA 10
Ninguém presta atenção na aula e eu não consigo entender a matéria, porque eu também não presto. Não presto atenção porque os demais alunos não prestam e bagunçam o tempo todo. Por isso dou muita gargalhada e também porque adoro exteriorizar minha vulgaridade a todo instante, claro. Continue lendo “ESTUDANTE NOTA 10”
DESESPERANÇA
Jenifer não gosta da mãe. Diz que é insuportável e atribui a ela outros adjetivos nada condizentes com o perfil materno, todo ele dedicado e bondoso das propagandas de maio. Carrega, a adolescente, muita mágoa no semblante entrecortado de desesperança quando retrata o cotidiano violento do bairro onde vive com a família composta de irmão, irmã, e a carranca daquela que a concebera e que agora passa o tempo a lhe conferir culpas, calúnias e demais impropérios. A menina não sabe por quê. Continue lendo “DESESPERANÇA”
DESAFORO
Desaforo é morar numa cidade praiana repleta de turistas nos grandes feriados, que trafegam pelas ruas em caçambas de camionetes, no teto delas, por sobre as janelas de automóveis em geral, em carrocerias de caminhões, porta-malas de carros hatch back (balançando as perninhas do lado de fora), enfim, em locais que os gênios da indústria automotiva sequer imaginaram que um dia gente haveria de se acomodar confortavelmente. Pensam até os projetistas da área, em instalar bancos nos lugares da preferência dos compradores de veículos destinados a trafegar no litoral. Estratégia de marketing, sabe? Afinal, os comerciais de TV exaltam todos os itens de conforto dos carros, como o espaço interno, por exemplo, que enche de orgulho o fabricante que nem percebe que o externo é bem maior. E é pensando nisso que essas pessoas passeiam assim, ao ar-livre, em que até o aparelho de ar-condicionado gastão é dispensado por não oferecer ventania tão refrescante. Continue lendo “DESAFORO”
VOVÓ NÃO É FÁCIL
A velha quando nasceu talvez tivesse recebido “A Velha” como segundo nome se soubessem que passaria fácil de um século de idade. Um século! Expressão que enche a boca quando o assunto é o número de primaveras de alguém. Soa até maior do que cem anos. Continue lendo “VOVÓ NÃO É FÁCIL”
TEMPO IMPLACÁVEL
Dentro do carro estacionado numa rua central da movimentada cidade do litoral paulista, eu observava uma velha senhora sentada numa confortável cadeira, na varanda da casa antiga, destas de telha francesa, construída nos fundos do terreno, como era costume em outros tempos. Continue lendo “TEMPO IMPLACÁVEL”
VIDA DE PROFESSOR
A luta cotidiana de um professor não se resume a giz e diários. Para espanto geral, é regada também de acontecimentos que fazem da sua profissão um misto de desânimo, dor de cabeça e aventura. Diga-se de passagem, um tipo de aventura constante no dia-a-dia de quem lida com o ser humano nos extremos de sua existência. Trocando em miúdos, ou trabalha com criança, ou com adolescente, ou com ambos. Missão nada fácil por se tratar de duas fases críticas da vida, em que os escrúpulos nem sempre são observados, e a energia se apresenta numa amperagem que normalmente deixa de lado o bom senso e a educação. Quadro ainda mais negro por se tratar de uma clientela que está dentro da escola somente porque é obrigada. Repudia, sobretudo, assuntos de cunho intelectual, razão mais do que suficiente para fazer manifestar a agressividade latente, sempre propensa a explodir no lombo dele, do professor, claro. Impulsividade que brota de pessoas de tenra idade, de agora e de outras épocas, essa catarse tende a bloquear a mente, dificultando a aquisição de conhecimento, até porque o jovem, nos dias de hoje, está mesmo habituado ao fácil e ao fútil, rejeitando com veemência tudo que exige um pouco mais de seu cérebro. Continue lendo “VIDA DE PROFESSOR”
UM TIRO PELA CULATRA
Trovões, relâmpagos, ventania, e muita chuva, são efetivamente elementos indispensáveis quando o assunto é filme de terror. Tudo isso, claro, realçado pelo soturno período da noite que deve servir de cenário no roteiro que coloca o mal como protagonista, como personagem central, sem o qual o medo deixa de ser. Continue lendo “UM TIRO PELA CULATRA”