A PRESSA É MESMO INIMIGA

Pressa é isso, o tipo de sintoma que só se manifesta para alfinetar os nervos, torná-los reféns de um poder egoísta que reserva para si toda a atenção que deveria ser dividida com outros assuntos. Não sobra para eles, no momento em que se está atrasado, nem uma única migalha, mesmo quando se tem a consciência de que há muito mais nesta vida do que aquele foco para o qual se dirige o pensamento aflito. Claro que não resolve refletir aqui com tamanha profundidade sobre tema tão delicado, até porque é impossível domar a tensão somente por pensar que não se deve se submeter a ela. Na verdade, torna o apressado cego e surdo para qualquer outro fato, mesmo que lhe envolva diretamente. Tudo que se concebe normalmente como real cai numa outra dimensão, alheia ao entendimento, um mundo paralelo que não nos diz respeito naquele instante de desespero, que pode ser breve ou longo. Corremos sempre com o coração na mesma velocidade, numa disputa ferrenha contra os ponteiros do relógio, rápidos como nunca. Só o ponto para o qual nos dirigimos é possível visualizar em momentos de pressa suprema.  Fenômeno que nos rouba, nos destitui de todo o direito de pensar em algo mais que não o tempo que voa enquanto andamos, lentamente. Continue lendo “A PRESSA É MESMO INIMIGA”

DESESPERANÇA

Jenifer não gosta da mãe. Diz que é insuportável e atribui a ela outros adjetivos nada condizentes com o perfil materno, todo ele dedicado e bondoso das propagandas de maio. Carrega, a adolescente, muita mágoa no semblante entrecortado de desesperança quando retrata o cotidiano violento do bairro onde vive com a família composta de irmão, irmã, e a carranca daquela que a concebera e que agora passa o tempo a lhe conferir culpas, calúnias e demais impropérios. A menina não sabe por quê. Continue lendo “DESESPERANÇA”

DESAFORO

Desaforo é morar numa cidade praiana repleta de turistas nos grandes feriados, que trafegam pelas ruas em caçambas de camionetes, no teto delas, por sobre as janelas de automóveis em geral, em carrocerias de caminhões, porta-malas de carros hatch back (balançando as perninhas do lado de fora), enfim, em locais que os gênios da indústria automotiva sequer imaginaram que um dia gente haveria de se acomodar confortavelmente. Pensam até os projetistas da área, em instalar bancos nos lugares da preferência dos compradores de veículos destinados a trafegar no litoral. Estratégia de marketing, sabe? Afinal, os comerciais de TV exaltam todos os itens de conforto dos carros, como o espaço interno, por exemplo, que enche de orgulho o fabricante que nem percebe que o externo é bem maior. E é pensando nisso que essas pessoas passeiam assim, ao ar-livre, em que até o aparelho de ar-condicionado gastão é dispensado por não oferecer ventania tão refrescante. Continue lendo “DESAFORO”

VIDA DE PROFESSOR

A luta cotidiana de um professor não se resume a giz e diários. Para espanto geral, é regada também de acontecimentos que fazem da sua profissão um misto de desânimo, dor de cabeça e aventura. Diga-se de passagem, um tipo de aventura constante no dia-a-dia de quem lida com o ser humano nos extremos de sua existência. Trocando em miúdos, ou trabalha com criança, ou com adolescente, ou com ambos. Missão nada fácil por se tratar de duas fases críticas da vida, em que os escrúpulos nem sempre são observados, e a energia se apresenta numa amperagem que normalmente deixa de lado o bom senso e a educação. Quadro ainda mais negro por se tratar de uma clientela que está dentro da escola somente porque é obrigada. Repudia, sobretudo, assuntos de cunho intelectual, razão mais do que suficiente para fazer manifestar a agressividade latente, sempre propensa a explodir no lombo dele, do professor, claro. Impulsividade que brota de pessoas de tenra idade, de agora e de outras épocas, essa catarse tende a bloquear a mente, dificultando a aquisição de conhecimento, até porque o jovem, nos dias de hoje, está mesmo habituado ao fácil e ao fútil, rejeitando com veemência tudo que exige um pouco mais de seu cérebro. Continue lendo “VIDA DE PROFESSOR”

Blog no WordPress.com.

Acima ↑