Eu era menino quando minha mãe recebia, contrariada, a frequente visita de vendedores de enciclopédias que passavam de portão em portão para exaltar as maravilhas culturais das coleções que muitas vezes sequer haviam folheado. E, ao contrário do que acontecia ao receber profissionais do ramo que ofereciam outros produtos, eu ficava eufórico, porque aqueles insistiam sempre em deixar o objeto de seu trabalho como amostra, só por alguns dias, com o descarado intuito de seduzir a família e, desta forma, efetuar a venda. Eu sei que enciclopédia para aquele que acordou adolescente no século vinte e um, tem a aparência de uma máquina de escrever, ou um disco de vinil. Mas como eu amava aquelas caixas que continham livros, belos livros, repletos de conhecimento que faziam brilhar meus olhos e reiterar a minha esquisitice, proclamada pela molecada do pedaço que tinha algo de peculiar aos jovens costumes dos dias de hoje: o ardente desejo de conservar à distância a palavra escrita. Continue lendo “QUANDO EU ERA MENINO”
POR ENTRE AS LINHAS
Entrelinhas é, por assim dizer, aquilo que se esconde entre as linhas. Conceito aparentemente óbvio, mas de grande importância, porque fala daquilo que normalmente passa quieto entre um neurônio e outro de cérebros distraídos. Daí a necessidade de se falar a respeito. Continue lendo “POR ENTRE AS LINHAS”
POVO ARMADO, CRIME DOBRADO
Li em algum lugar que retorna em grande estilo a campanha para desarmamento da população. Imagine como ficará a criminalidade neste país finda esta campanha. Cairá a zero, com toda certeza. Afinal, povo desarmado, tranquilidade em alta. Veio, aliás, em boa hora esta medida, sobretudo porque não suporto mais ver tanta agressão no trânsito, no trabalho, na família, na escola, na igreja, no lazer, enfim, em toda parte onde um tiroteio pode ter início a qualquer momento. Dá o que pensar, inclusive, o destino de tanto sangue em embates tão duros. A ideia é fazer generosa doação ao banco, sempre carente – atitude humana que acabaria por beneficiar os próprios feridos. Continue lendo “POVO ARMADO, CRIME DOBRADO”
O PARQUE DA MINHA CIDADE
O parque verde convida para o passeio. Em meio a árvores antigas e vegetação farta estão as alamedas que cortam pequenos lagos de carpas e tartarugas. Os pássaros voam por toda parte, mas sempre com o cuidado de não deixar as dependências de água e vasto arvoredo. A vontade de caminhar por este lugar é sentimento que bate, logo que se chega. É magia a encher a alma urbana. Continue lendo “O PARQUE DA MINHA CIDADE”
O ABACATEIRO
Rosa havia muito emplacara os noventa anos e, tirando alguma dor ou mal estar frequentes em pessoas de idades avançadas, era capaz de executar qualquer serviço doméstico que aprendera desde menina. Continue lendo “O ABACATEIRO”
OLHOS PERTURBADORES NA NOITE
Nunca tinha reparado nos olhos de uma mariposa, ou de qualquer outro inseto. Mas uma delas levou-me a notá-los ao apanhar-me de surpresa, debruçado por sobre um livro, um magnífico livro que folheava devagar, apreciando textos e fotos, riquíssimos em cada detalhe da vida de três dos maiores escritores brasileiros. Continue lendo “OLHOS PERTURBADORES NA NOITE”
VIDAS ALAGADAS
Eu tentava não deixar minha casa, afinal tudo que possuímos é nela que guardamos, inclusive, um bocado de sentimento impregnado nas paredes, emoções que norteiam a existência de cada um. Todas as nossas riquezas estão lá, com exceção de dinheiro, claro, sonho distante de pessoas sujeitas às intempéries do clima. Continue lendo “VIDAS ALAGADAS”
TAMANDUATHEY
A avenida estava lenta, lenta pelo trânsito bastante congestionado em horário de pico. Nó que faz perder o tempo e a paciência. De repente, ocorreu-me indagar sobre o que teria causado o engarrafamento. Tola indagação presente nessa hora. Eu estava só. Era, pois, a única pessoa que poderia responder à minha pergunta. Cheguei, afinal, à óbvia conclusão de que não é necessário que haja um motivo para ter seu tráfego parado, uma grande cidade. Somente um determinado número de veículos tentando passar pelo mesmo local à mesma hora, e pronto. Quando acontece algum acidente, então, é bom nem pensar. A alternativa mais tranquila e econômica num momento como esse é desligar o motor e relaxar. Se tiver um livro à mão, tanto melhor. Continue lendo “TAMANDUATHEY”
ORAÇÃO
Perdoe, meu Deus, a falta de palavras. Aquelas que os especialistas em religião possuem em seu repertório para se dirigir ao Senhor. Parece até que soam mais autênticas e com maior possibilidade de chegar até aí, orações pronunciadas por alguém que leva jeito para a coisa. O que certamente não é o meu caso. Continue lendo “ORAÇÃO”
ESPELHO, ESPELHO MEU
Pouca gente se dá conta de que atravessa a vida colecionando um amontoado de costumes e manias de forma compulsiva, às vezes, como entrar em casa por uma porta, e deixá-la pela mesma porta; ao trancá-la, é preciso verificar excessivamente se está fechada; os objetos, para alguns, devem ser dispostos sempre na mesma posição, por sobre um móvel; utilizar por décadas a mesma marca de um produto, também não deixa de ser transtorno para outros… E o que dizer, então, daquele que nunca usa roupa ou calçado de determinada cor, que jamais começa a subir uma escada, ou ainda adentrar um recinto com o pé esquerdo? Sem dúvida, uma vastíssima gama de aporrinhações a acompanhar essa gente por toda uma existência. Professor, por exemplo, tem o estranho hábito de dialogar consigo mesmo. Talvez pela certeza de que assim alguém dará crédito às suas palavras. Esquisitice que a educação nacional criou para ninguém botar defeito. Continue lendo “ESPELHO, ESPELHO MEU”