Assisti, certa vez, a um filme em que um homem branco, preso numa aldeia de índios hostis (logicamente norte americanos), ouve de outro, com jeito de maluco, capturado anos antes, que o melhor a fazer era fingir ter miolo mole também, única maneira de ser temido e respeitado por seus algozes. Continue lendo “GENTE MUITO LOUCA”
É TEMPO DE CHOVER
Está aberta a temporada de chuva, benfazeja chuva de verão que hidrata a pele e a mantém viva. Lava a alma também, e da de comer, e produz a lágrima que é derramada para engrossar o caldo da enchente. Porque afinal, grande é a quantidade de precipitação pluviométrica que encharca o cotidiano de quem mora nas encostas, baixadas, sopés… É gente que, como eu e você, depende dela para sobreviver, mas que deseja, cheia de rancor, que se vá para sempre quando o excesso leva de roldão a vida. E então este povo, cuja sina é mesmo manter os olhos voltados para o céu, em prece pede qualquer fresta de azul, de luz do sol que há de tudo secar. Da mesma forma que lá, noutro lugar, seca o pasto e o olhar das pessoas, igualmente dirigido ao firmamento. É mesmo coisa de louco essa existência em que se convive com os contrários: bem e mal, belo e feio, claro e escuro, necessário e demasiado… São desejos que se contradizem e dos quais não há como se livrar. Fazer o quê? Continue lendo “É TEMPO DE CHOVER”
COISAS DE CACHORRO
É notório o sucesso que fazem as coisas de odor repugnante na vida dos cães. Impressiona a atração desses animais pela matéria em decomposição e demais porcarias. O focinho, com aparelho cheirador privilegiado, está sempre metido em lugares pouco atraentes a outros bichos. Questiono até se o olfato poderoso não seria responsável pela distorção dos cheiros, tornando-os agradáveis aos narizes caninos. Da mesma forma, se cheirássemos, nós humanos, com tantas vezes mais sensibilidade como os cachorros, talvez dividíssemos com eles o prazer de saborear o mau-cheiro que, aliás, é possível que nem fosse assim tão mau. Continue lendo “COISAS DE CACHORRO”
A MENINA DA FOTO
Impressiona o modo como as pessoas se habituam às situações cotidianas, boas ou más. É espantoso até como expressam descontração e certa dose de tédio, diante de fatos trágicos ou de perigo. Logicamente que nem todos compartilham de tão relaxante existência. Uns e outros padecem com o sofrimento. De qualquer forma, porém, entre o sufoco e o desespero, lá está ele, o incômodo sossego de alguém, cantado em prosa e em verso por um longo e efusivo bocejo, descarada intenção de mostrar àqueles, que a tranquilidade reina absoluta em meio ao caos. É como se a vida tivesse que ser assim, dura, só para amaciar o coro. Continue lendo “A MENINA DA FOTO”
DOCES OLHINHOS LACRIMEJANTES
Conversava, há pouco, com um amigo que dedica todos os dias de sua saborosa vida à gratificante e bem gratificada profissão de lecionar, e o assunto dizia respeito a algo sobre o qual pouco se fala numa roda de profissionais da educação, em sala especialmente montada para o desabafo da classe. Discutíamos, então, a personalidade século XXI da garotada, matéria prima do nosso ofício. Falávamos, inclusive, sobre uma nova tática de repreensão a professores malcriados, que alunos destituídos de qualquer compromisso com os estudos, vêm desenvolvendo (detalhes mais adiante) em suas horas de folga (todas). Que orgulho ter uma arma eficaz de calar a autoridade da sala no momento da aula! E têm conseguido, fazendo uso deste recurso que logicamente formará golpistas, sonho de papai e mamãe quando colocam o pimpolho na escola pública. Continue lendo “DOCES OLHINHOS LACRIMEJANTES”
SÁBIA NATUREZA
Oswaldo chorava diante da sepultura onde colocavam o corpo de seu velho e querido pai. Não podia suportar a ideia de ver entrando para sempre naquele buraco frio, pessoa tão amada que estivera ao seu lado por toda vida, quase cinquenta anos. Continue lendo “SÁBIA NATUREZA”
BARRACO EM NOME DA JUSTIÇA
Ando sempre pensando sobre a dificuldade que tem o ser humano em lidar com a complexa atividade de pensar. Parece contraditório, admito, já que passa a vida inteira a exercê-la… Chego até a considerar que o motivo de não conseguir desenvolver o pensamento, talvez esteja no fato de utilizar só uns míseros percentuais de sua mente brilhante. Penso muito nisso, principalmente quando presencio uma discussão em que duas pessoas partem para a agressão verbal, fazendo uso de todos os recursos linguísticos disponíveis em seu repertório, somente para ofender uma à outra. Continue lendo “BARRACO EM NOME DA JUSTIÇA”
ATMOSFERA IRRESPIRÁVEL
Acordei. A atmosfera ira irrespirável. Eu não sabia que acabava de acordar. Imaginava.
O cheiro forte era insuportável. Não conseguia definir o que era. Parecia… Continue lendo “ATMOSFERA IRRESPIRÁVEL”
A NOITE SEMPRE PROMETE
A noite prometia e o meu entusiasmo despontava tal qual o de qualquer um que adentrava o recinto que horas depois se transformaria num inferno difícil de acreditar e compreender. Era a sinistra presença da morte que viria nos apanhar como se cumprisse uma missão, um mandado de busca. Continue lendo “A NOITE SEMPRE PROMETE”
À BEIRA DO ABISMO
O moço do telejornal informa e sua voz é grave, seu olhar é de consternação. A notícia choca mais pela banalidade do que pela brutalidade em si: a moça, grávida de nove meses, recebe seis tiros e sua filha de apenas dois anos, também é alvejada pelo facínora que, segundo o seu entendimento, teria praticado algum ato de justiça, já que o companheiro da vítima, de alguma forma, lhe é devedor. No cérebro do assassino corre sangue como em qualquer outro. A diferença está no seu pensamento, também encharcado, mas com sangue alheio. Em nome de quê praticara tamanha barbaridade? Sentira-se gratificado ao final? Continue lendo “À BEIRA DO ABISMO”