É TEMPO DE CHOVER

Está aberta a temporada de chuva, benfazeja chuva de verão que hidrata a pele e a mantém viva. Lava a alma também, e da de comer, e produz a lágrima que é derramada para engrossar o caldo da enchente. Porque afinal, grande é a quantidade de precipitação pluviométrica que encharca o cotidiano de quem mora nas encostas, baixadas, sopés… É gente que, como eu e você, depende dela para sobreviver, mas que deseja, cheia de rancor, que se vá para sempre quando o excesso leva de roldão a vida. E então este povo, cuja sina é mesmo manter os olhos voltados para o céu, em prece pede qualquer fresta de azul, de luz do sol que há de tudo secar. Da mesma forma que lá, noutro lugar, seca o pasto e o olhar das pessoas, igualmente dirigido ao firmamento. É mesmo coisa de louco essa existência em que se convive com os contrários: bem e mal, belo e feio, claro e escuro, necessário e demasiado… São desejos que se contradizem e dos quais não há como se livrar. Fazer o quê? Continue lendo “É TEMPO DE CHOVER”

COISAS DE CACHORRO

É notório o sucesso que fazem as coisas de odor repugnante na vida dos cães. Impressiona a atração desses animais pela matéria em decomposição e demais porcarias. O focinho, com aparelho cheirador privilegiado, está sempre metido em lugares pouco atraentes a outros bichos. Questiono até se o olfato poderoso não seria responsável pela distorção dos cheiros, tornando-os agradáveis aos narizes caninos. Da mesma forma, se cheirássemos, nós humanos, com tantas vezes mais sensibilidade como os cachorros, talvez dividíssemos com eles o prazer de saborear o mau-cheiro que, aliás, é possível que nem fosse assim tão mau. Continue lendo “COISAS DE CACHORRO”

A MENINA DA FOTO

Impressiona o modo como as pessoas se habituam às situações cotidianas, boas ou más. É espantoso até como expressam descontração e certa dose de tédio, diante de fatos trágicos ou de perigo. Logicamente que nem todos compartilham de tão relaxante existência. Uns e outros padecem com o sofrimento. De qualquer forma, porém, entre o sufoco e o desespero, lá está ele, o incômodo sossego de alguém, cantado em prosa e em verso por um longo e efusivo bocejo, descarada intenção de mostrar àqueles, que a tranquilidade reina absoluta em meio ao caos. É como se a vida tivesse que ser assim, dura, só para amaciar o coro. Continue lendo “A MENINA DA FOTO”

DOCES OLHINHOS LACRIMEJANTES

Conversava, há pouco, com um amigo que dedica todos os dias de sua saborosa vida à gratificante e bem gratificada profissão de lecionar, e o assunto dizia respeito a algo sobre o qual pouco se fala numa roda de profissionais da educação, em sala especialmente montada para o desabafo da classe. Discutíamos, então, a personalidade século XXI da garotada, matéria prima do nosso ofício. Falávamos, inclusive, sobre uma nova tática de repreensão a professores malcriados, que alunos destituídos de qualquer compromisso com os estudos, vêm desenvolvendo (detalhes mais adiante) em suas horas de folga (todas). Que orgulho ter uma arma eficaz de calar a autoridade da sala no momento da aula! E têm conseguido, fazendo uso deste recurso que logicamente formará golpistas, sonho de papai e mamãe quando colocam o pimpolho na escola pública. Continue lendo “DOCES OLHINHOS LACRIMEJANTES”

BARRACO EM NOME DA JUSTIÇA

Ando sempre pensando sobre a dificuldade que tem o ser humano em lidar com a complexa atividade de pensar. Parece contraditório, admito, já que passa a vida inteira a exercê-la… Chego até a considerar que o motivo de não conseguir desenvolver o pensamento, talvez esteja no fato de utilizar só uns míseros percentuais de sua mente brilhante. Penso muito nisso, principalmente quando presencio uma discussão em que duas pessoas partem para a agressão verbal, fazendo uso de todos os recursos linguísticos disponíveis em seu repertório, somente para ofender uma à outra. Continue lendo “BARRACO EM NOME DA JUSTIÇA”

À BEIRA DO ABISMO

O moço do telejornal informa e sua voz é grave, seu olhar é de consternação. A notícia choca mais pela banalidade do que pela brutalidade em si: a moça, grávida de nove meses, recebe seis tiros e sua filha de apenas dois anos, também é alvejada pelo facínora que, segundo o seu entendimento, teria praticado algum ato de justiça, já que o companheiro da vítima, de alguma forma, lhe é devedor. No cérebro do assassino corre sangue como em qualquer outro. A diferença está no seu pensamento, também encharcado, mas com sangue alheio. Em nome de quê praticara tamanha barbaridade? Sentira-se gratificado ao final? Continue lendo “À BEIRA DO ABISMO”

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