REFLORESTA

Tive um sonho bom, destes que raramente povoam o vasto universo dos sonhos. Nele, eu me encontrava num lugar onde antes vivera, cheia de esplendor, uma floresta imensa. No entanto, tudo ali agora era devastação e cheirava morte. Foi no tempo em que as sombras reinaram absolutas no país dos contrastes é que se deu o sinistro responsável pela aniquilação da grande mata, dos seus bichos, da gente do lugar, dos rios… E isso também mexeu com o clima de muitas regiões. Mexeu mesmo com a vida das pessoas que, distraídas, nem se deram conta dos projetos nefastos que botaram abaixo todo o verde da bandeira.

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VIVA A DEMOCRACIA!

É ano de eleições, e há um furor político, diga-se de passagem, um tanto comum nessa época. Os candidatos estão afoitos, em busca de apoio e grana para a campanha. Muitos até deixaram o conforto dos altos cargos no planalto central para buscarem uma vaga no congresso ou no senado. Certamente lá, naquelas casas, o sossego é ainda maior, e o salário compensador. Quem há de duvidar? Além, claro, das oportunidades de negócios com os vários poderes que cercam o poder. Tudo na calada da noite, ou do dia mesmo. Eles não se importam mais. Mesmo porque, se o político não se candidatar a presidente, uma vez eleito, poderá tocar a vida como o diabo gosta, sem aporrinhação.

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DESALENTO TELEVISIVO

Eu ligo a televisão e, minutos depois, me pego arrependido, uma vez que assisto somente aos noticiários, programas que pouco ou nenhum alento trazem para o coração. Sinto-me até meio masoquista com o simples ato de ligar o aparelho. Se dedicasse o meu tempo televisivo para ver big brother, novela ou qualquer bobagem do tipo talvez não sentisse o peito tão apertado. Os telejornais de hoje, por exemplo, mostram incansavelmente a tragédia dos alagamentos que destroem a vida de quem mora em lugares sujeitos a eles. São relatos de gente que perdeu de objetos a casas inteiras, de pessoas da família a família inteira, todos engolidos pela água que não é sensível à condição humana. São cenas registradas pela tecnologia que perambula aleatória pelas mãos, que não se dão conta disso quando seu olhar está todo ele voltado para o desastre.

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A ERA DA DESINFORMAÇÃO

Há uma guerra em andamento. Na verdade, várias guerras. Tantas, que algumas caíram no esquecimento da grande mídia, que é meio distraída para com as questões que não lhe tragam um lucro político imediato. O sensacionalismo, velho conhecido do público que ama sobremaneira um barraco de grandes proporções, continua sendo utilizado como se a TV vivesse seus primeiros dias. Apesar de que, é preciso entender que, por se tratar de empresa, ela tem mesmo que zelar pelo faturamento, mesmo que seu setor de jornalismo tenha que, vez ou outra, atropelar a boa informação em prol da opinião de gente graúda. Essa é a visão oportuna do empresário das comunicações, o que lida com palavras e imagens, difundindo tudo em grande escala. Ele está sempre propenso a mover suas pedras de forma que agrade este ou aquele. É assim, afinal, que funcionam as engrenagens do capitalismo, e dificilmente alguém conseguirá mudar isso.  

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O SER HUMANO E SUAS CONTRADIÇÕES

O homem morreu tentando salvar o desconhecido que se afogava na enchente. Teria sido eletrocutado por um cabo elétrico, solto pela ventania. Não, o homem nem desconfiava de que morreria na ação. Não entregou, pois, sua vida para livrar da morte o outro. Heroísmo a tal ponto, só no cinema. Teria sido a fatalidade a autora do seu destino, afinal. Ele só tentava estender a mão a alguém, certo de que havia uma chance de salvá-lo.

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A NORMALIDADE DAS COISAS

Lá, onde o céu se junta com o mar, é a fronteira do meu país com o resto do mundo.
Mundo, às vezes, parecido com o meu e, por vezes, bem diferente. Realidades opostas, em
nada alinhadas ao que se vive em terra Tupinambá, é o que se vê normalmente em territórios
situados acima da linha do Equador. E o povo alegre do meu país, em sua grande maioria,
sequer tem ideia do contraste entre uma coisa e outra.

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DIACHO DE VARIANTE


Parece que a palavra pandemia, por muito tempo esquecida, veio para assumir seu
lugar dentre as mais prestigiadas, e, não satisfeita, procura ainda ganhar mais destaque, oxalá
o protagonismo no pronunciado mundo das palavras. E ela sabe que a concorrência é grande.
Sabe que muitas se conservam na dianteira nesta disputa acirrada para assumir o ponto mais
alto do pódio. De fato não é fácil competir com violência, miséria, covardia, corrupção,
negacionismo, medo, insegurança… Complicada, enfim, essa vida das palavras que buscam se
projetar acima das outras, ganhar ainda mais notoriedade num mundo em que vocábulos
como amor, empatia e compaixão foram empurrados para o final da fila, sem o menor pudor.

Mas pandemia agora é termo que se esforça para se impor, tendo em vista a sua
importância em relação às demais. Importância, dada à sua presença marcante e constante no
seio da sociedade. Ele chegou, afinal, e se acomodou por meio de um vírus que criou uma
doença que se espalhou pelo planeta, foi contida pelas vacinas e voltou com as chamadas
novas variantes da molécula que faz cópias diferentes de si mesma para continuar
sobrevivendo. Portanto, mesmo não sendo a palavra mais falada, ela procura marcar presença
por estabelecer um relacionamento firme e duradouro com o medo, a desconfiança, a morte e
demais termos que reverberam nos ouvidos em função dela, da pandemia.

Agora, por exemplo, em momento em que o mundo já começava a vislumbrar um
horizonte sem a peste, surge uma nova variante. E tudo indica que ela veio determinada a
trazer recordes de internações e pânico. Isso, somado a um novo tipo de gripe que vem se
espalhando, sobretudo, em Pátria Brasilis, e confundindo as pessoas, que não sabem se seu
corpo abriga uma coisa ou outra. Corre-se, então, para o teste. Mas está em falta o teste! O
governo, responsável pela compra e distribuição do produto, parece pouco ou nada ocupado
com a questão.
As notícias diárias são alarmantes e colocam pessoas e empresas em polvorosa.
Profissionais da saúde e de outras categorias, vêm se afastando do trabalho em razão da
doença contraída, estado que lhes impõe obviamente a confinação.
Mas parte da população não se importa, simplesmente porque se recusa a acreditar na
letalidade da coisa. São pessoas de parco saber que se entregam de corpo e alma à conversa
fiada, caminho aparentemente mais confortável e fácil de seguir. E é justamente esse povo
que renuncia ao seu direito à vacina, se adoece e, com alguma frequência, tem seus restos
mortais conduzidos ao esquecimento.
Muito se fala sobre a necessidade de novamente se isolar, embora nem as autoridades
saibam exatamente o que fazer. Talvez correr para algum canto com as mãos na cabeça, e
pedir a clemência divina seja a melhor saída. Refiro-me, claro, às lideranças mundiais de um
modo geral. Quanto ao sinistro que acomete a gente alegre deste vastíssimo território
Tupinambá, os líderes desse povo já têm a solução: (abusando da velha linguagem coloquial)
deixar pra lá, empurrar com a barriga, fingir que nada está acontecendo. Aliás, se não
submeter a população à testagem em massa, não se tem os números de casos. Cria-se, então, a
aparência de uma normalidade pré-pandemia. Muito conveniente para que busca algum número a mais nas pesquisas.

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A GRANDE FLORESTA PEDE SOCORRO

A grande floresta está sendo trucidada dia a dia como se não tivesse direito à vida, como se ela e seus habitantes tivessem sido condenados por um tribunal que considerou lícito promover a sua morte. O ser humano, senhor do destino de toda a Terra, tem nas mãos meios e recursos para arrancar suas árvores, contaminar suas águas e matar os nativos do lugar, igualmente humanos. E, ao algoz, também é conferido o direito à destruição, por meio de licença outorgada pelo poder máximo do país, que sente verdadeira aversão por tudo o que respira.

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