SUFOCO DE VIDA

Asfixia é, por definição, dificuldade ou impossibilidade de respirar. Tecnicamente o termo tem a aparência de algo tão normal quanto andar ou comer. Na prática, contudo, a coisa em si lembra o desespero de repentinamente se ver privado de sentir o ar fluir para dentro de si, condição primeira para que continue vivo.

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O GOSTO AMARGO DAS COISAS

Dia desses, eu amargava um dilema, e nele me debrucei para, quem sabe, chegar a uma conclusão plausível. Fato é que a vida começa a perder o sabor quando vemos a hipocrisia se consagrar vencedora e, por conseguinte, senhora do destino. Talvez fizesse mais sentido para o leitor ver aqui o termo “amargo” usado para designar o gosto deste palco de muitas tragédias, embora “sem sabor” eu considere de maior realce para o prato que degustamos diariamente. Insípido que só vendo!

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O DIREITO DE PLEITEAR

Estamos em época de eleições, aqui e acolá. A todo instante nossa conversa ou o que quer que estejamos ouvindo é cortada pelo barulho ensurdecedor do carro que passa para trazer as boas novas que normalmente se traduzem em promessas do candidato. Aquele que, em troca do seu voto, se propõe a arregaçar as mangas e trabalhar duro. Sempre esbanjando honestidade e muita seriedade que o cargo exige.

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A VIDA E SEUS ABACAXIS

Um dia minha mulher cismou de plantar a coroa do abacaxi que eu descascava. Pura bobagem – adverti – não dará fruta em vaso tão pequeno. Claro que ela não deu lá muita importância para a minha teoria, rigorosamente fundamentada em ciência nenhuma, e a depositou com muito jeito no vaso que eu acabara de reprovar. Aliás, não pensei que o vegetal fosse vingar em qualquer terreno, mesmo em terra boa. Mas minha esposa, decidida como só ela, ainda dispensou à planta todo o carinho de que são dignos os seres puros deste planeta. Até aquele afago que daria a um gato, concedeu a ela, mesmo sentindo nas mãos a pele espinhosa nada parecida com o pelo macio do bichano lá de casa. Certamente aflorava-lhe no pensamento a beleza da diversidade de espécies deste mundo. Não pude deixar de admirá-la, uma vez que também divido com ela essa sensibilidade para com as coisas da vida. 

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A VACINA DO GOVERNADOR

Assistindo pela TV a um show da Maria Bethânia, esqueci-me, por um momento, do assombro dos dias de hoje. Uma voz belíssima cantando e declamando, enchendo de poesia a minha casa e a minha alma, fez-me ver com um bocadinho mais de esperança o horizonte que ora se descortina. A arte, aliás, exerce esse poder sobre os amantes da arte. E a música na noite quente veio mesmo para reafirmar no meu espírito a excitação que invadiu o âmago de cada um ao ver a primeira pessoa vacinada lá na velha Bretanha. Dia memorável em que o mundo assistiu ao que pode ser o início de um novo tempo.

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A POÇÃO MÁGICA

Assistimos agora a um fenômeno nunca antes imaginado. Vimos que, em tempos de pandemia, ganhou espaço na mente humana o sonho pela liberdade, perdida desde que o sinistro se apossou da vida com a nítida intenção de dar cabo dela. Aliás, as pessoas nunca tiveram sonhos tão singelos durante sua existência. Casa própria, carro, viagens, fama de artista, são alguns dos itens que embalaram muita gente em devaneios solitários, íntimos de verdade. Joias escondidas lá no fundo do baú que cada um guardava dentro de si, só para serem apreciadas e novamente trancadas a sete chaves.

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SALVE A BANDEIRA

Bandeira é, por definição, uma flâmula criada para representar um país, uma escuderia, um time de futebol, os ideais de um povo… Na verdade, não passa de um conjunto de estampas com cores, tudo ajeitado num pedaço de pano comum, cujos desenhos servem para fixar na memória e no íntimo das pessoas a ideia de veneração. Funcionam mesmo como tatuagens mentais que fazem com que elas reverenciem com muito sentimento um pavilhão que normalmente só serve para ditar os rumos de suas vidas que, quase sempre, não atendem aos seus anseios.

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