COMO DIZIA MINHA MÃE

“É, pra morrer basta estar vivo”, dizia mamãe, convicta, todas as vezes que recebia a notícia do súbito desaparecimento de alguém. Coube a mim, diga-se de passagem, a lembrança desse ditado quando de sua partida. Máxima um tanto óbvia, eu sei, porém, perfeitamente cabível naquela hora em que o sinistro acontecimento tem o poder de causar perplexidade, mesmo que se saiba da realidade dos fatos e da fragilidade do fio, sustentáculo da vida. Basta olhar para o ser humano enquanto corpo a perambular por esse mundo, para que se viaje numa perigosa reflexão que pode levar à consciência de se saber frágil e desamparado. Continue lendo “COMO DIZIA MINHA MÃE”

PROFESSOR DESAJEITADO

Pensei que vida de professor fosse dura somente aqui em pátria tupinambá. Entretanto, o caso que foi relatado no noticiário da manhã, desmente este escritor que, em se tratando de educação, tende sempre a relegar a seu país as primeiras colocações no pódio do fracasso escolar. Razão de sobra tem para fomentar sentimento tão perverso e carregado de rancor, afinal, o ser humano deste lugar, que se entrega diariamente à difícil tarefa de ensinar, já anda meio exausto com o descaso dedicado de coração ao conhecimento. Chega a dar inveja daquele de além mar que a mídia mostra gordo, bem nutrido de comida, de respeito e um tantinho de prestígio. Continue lendo “PROFESSOR DESAJEITADO”

CHAMEI DE MAU GOSTO

No meu país, graças a Deus, o povo agora pode protestar. Não que não pudesse fazê-lo antes… E até que fazia. O problema é que, uma vez detido pelos inquisidores da época, tinha seu coro arrancado com a acusação, nada comum em dias atuais, de subversivo, sujeito que subverte os bons costumes, ato passível de ser punido com o desaparecimento, o que, aliás, nem soa assim tão penoso quando se imagina uma guilhotina, ou uma forca… Apavorante, contudo, é tomar conhecimento dos detalhes técnicos das sessões de interrogatório a que era submetido o acusado antes que lhe botassem fim ao sofrimento. É bom nem pensar. Continue lendo “CHAMEI DE MAU GOSTO”

SUFOCO DE ESTAÇÃO

Todos anseiam pela noite que vem para refrescar, livrar a vida do sufocante calor dos trópicos. Quimera que se desfaz rapidamente com a ausência de uma brisazinha benfazeja que, nesta hora, só faz adiar o sonho do frescor noturno. Aquela chuvinha, então, hoje escasso produto que São Pedro insiste em guardar para si, viria para dar um pouco de umidade ao ambiente que só oferece secura. Mas o céu estrelado anuncia outro dia seco. E eu pelas lojas, em busca de mais ventiladores, como se não houvesse o suficiente em casa. E não há. Continue lendo “SUFOCO DE ESTAÇÃO”

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