A noite prometia e o meu entusiasmo despontava tal qual o de qualquer um que adentrava o recinto que horas depois se transformaria num inferno difícil de acreditar e compreender. Era a sinistra presença da morte que viria nos apanhar como se cumprisse uma missão, um mandado de busca.
Na entrada, o olhar das pessoas, todas jovens como eu, continha aquele brilho de sábado à noite. O mesmo que os poucos anos vividos deixam estampado no rosto do menino ou da menina. É o privilégio de ter no espírito a impressão de que se vive um feriado a cada dia da vida, em que se comemora sei lá o quê, com o sorriso sempre propenso a transformar-se numa gargalhada por qualquer bobagem. Isso é ser jovem. Um ser que habita um mundo reinado pelo divertimento que vem de toda parte, em especial, da cara dos amigos. É um paraíso feito de sentimentos que estão em constante ebulição, sejam eles bons ou maus. Por isso ama e odeia com a mesma facilidade e ao mesmo tempo. Chateia-se por tudo, e empolga-se por nada. A ansiedade matreira faz de seu coração gato e sapato diante da expectativa de uma prova importante, de uma festa, de um encontro, de uma balada… Esta que, aliás, haveria de subtrair-me os anos vindouros cheios de sonhos com a graduação que eu iniciava. Seria a carreira da minha vida que encheria papai e mamãe de muito orgulho.
Eu ainda não sabia que não era desejo do destino ver-me formado, e que este armava uma tocaia na casa noturna ou soturna, como querem alguns. Abreviaria sim minha existência o tal, no lugar e na noite determinados para o extermínio de duas centenas de jovens como eu. Minha garota que se salvaria, porque talvez não tivesse sido solicitada sua presença lá no outro plano, também ignorava que estava voltando para um mundo do qual eu não faria mais parte, que seria somente uma lembrança no retrato de cabeceira.
O lugar era grande. Mesmo assim, o movimento sugeria pouco espaço, dado o número exagerado de pessoas no agito da noite em que se comemorava de tudo. Ainda bem que não é uma barca amazonense, pensei, dando vazão ao meu senso de humor que as biritas e o som alucinante que o grupo fazia com bastante competência, já deixavam à flor da pele. Difícil, inclusive, atentar para situações de perigo que ninguém da minha idade, em local para a diversão, considera. Nada de sinistro permeia o pensamento da rapaziada que ali está em busca da farra.
Poucos perceberam, pois, a pequena chama no teto que, a princípio, pareceu fazer parte do show, já que partira das mãos do músico, mas que em segundos declarou sua intenção nenhuma de promover mais alegria. A fumaça negra alcançou cada um que, no corre-corre, procurou uma saída, um local onde houvesse o tão precioso ar fresco. A violência gerada pelo pânico que causava destruição e gritaria ensurdecedora fez-me correr sem saber para onde, já sentindo a asfixia que me fazia arder por dentro e minguar as minhas forças. Sufoquei envolto em pensamentos que me chegavam num torvelinho desesperado, como se quisessem me resgatar da loucura. A partir de então nada mais vi ou sofri, além de um vazio que parecia carregar-me, leve, tão leve que curti à beça.
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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