À BEIRA DO ABISMO

O moço do telejornal informa e sua voz é grave, seu olhar é de consternação. A notícia choca mais pela banalidade do que pela brutalidade em si: a moça, grávida de nove meses, recebe seis tiros e sua filha de apenas dois anos, também é alvejada pelo facínora que, segundo o seu entendimento, teria praticado algum ato de justiça, já que o companheiro da vítima, de alguma forma, lhe é devedor. No cérebro do assassino corre sangue como em qualquer outro. A diferença está no seu pensamento, também encharcado, mas com sangue alheio. Em nome de quê praticara tamanha barbaridade? Sentira-se gratificado ao final?
Poucos dias antes a bestialidade humana depositara uma bala na cabeça de uma jovem, encontrada no assento traseiro de um carro. Tudo em nome do amor. Assim como em outro momento das páginas policiais, um fato deu muito ibope para a TV, quando um sujeito matou por paixão uma menina, depois de dias de angústia dentro de um apartamento. E, para realçar o quadro de barbárie, uma câmera, cumprindo seu papel de mostrar rostos, acabou por delatar o pai da mesma garota, que deixara um rastro de ódio em seu lugar de origem, e fugira, e tornara a fugir. Não teria assassinado por amor um delegado, lá isso não. Por que, então, abreviara a permanência terrena de seu semelhante?
Recentemente, em outro episódio da vida como ela é, a existência de um jovem foi abreviada pelo dedo impetuoso do bandido que ao ver frustrada sua ação, meteu a mão armada através das grades do portão atrás do qual, de cócoras, a vítima tentava se esconder.
Agora, a insanidade humana escolheu uma escola para mostrar ao mundo a sua força. Matou crianças e fez chorar toda uma nação que não cansa de perguntar: quando é que isso vai parar? E a revolta popular explode nesses instantes de aflição, embora o tempo acabe por sepultar com os mortos as lembranças. É preciso, contudo, saber que a vida não esquece e tem lá seus métodos de cobrar a conta.
Algumas pessoas mostram coragem no esforço do trabalho diário. Outras empolam o peito e exibem muita valentia quando de posse de uma arma. Poder que qualquer um pode ostentar, mas que lhe tira dos pés a frágil sustentabilidade que lhe permite permanecer no trem da evolução.
Há, inclusive, um desconforto geral quando o assunto é ecologia em perigo, a violência do homem para com o meio. Mas e a violência do homem para com o homem? Esta que salta aos olhos e parece normal. É justamente esse estado de normalidade que põe em risco a raça humana, mais próxima do aniquilamento pelo dedo que puxa o gatilho do que pelo propalado calor. E, à beira do abismo está o espírito que vê como absolutamente compreensível o crime de morte. Aliás, é bom lembrar que a falta de respeito e o ímpeto de se levar vantagem sobre o outro, é que dão início à ciranda de agressões que fomentam o pensamento retrógrado, antagônico à ideia de sabedoria.

PROF.RODOLFO DE SOUZA

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