CALUNIANDO O TEMPO

Declaro, com a devida veemência, o meu protesto ao povo que torce o nariz quando o tempo fecha e a chuva iminente é considerada sinal de mau agouro ou coisa que o valha. É compreensível até o medo de pessoas para quem o aguaceiro é certeza de desolação. Para todos, contudo, chuva é vida. Afinal, sem ela fica difícil imaginar qualquer espécie viva sobre a Terra. Parece, inclusive, que esqueceram de contar para essa gente caluniadora que tem água na composição física da maior parte de seu frágil organismo, e que sem ela tudo seca, sobretudo a respiração.

Fico aborrecido com os comentários que ouço sobre as condições do tempo: “Será que vai sair sol? Que droga, chuva de novo!”. Falatório comum nesta época conturbada em que chove a cântaros, faz calor e frio, garoa. Obviamente que vejo tudo com olhos que nasceram em lugar de clima temperamental, sujeito também às insanidades do século XXI. Coisa de louco! Ainda assim, é perturbador ouvir chamar de mau tempo o dia chuvoso. Até o noticiário se refere a ele de forma pejorativa quando fornece a previsão. Será que consideraria ruim a umidade que torna frio e agradável o ar, o sertanejo do agreste nordestino desse imenso país, habituado em ver tudo morrer calcinado pelo calor soberano? O verde daquela região, assim como de qualquer outra, por certo depende dela, da chuva, para ser verde. Senão é cinza, resto do que se queimou.

Quando o dinheiro permite ainda umas feriazinhas, para quem viaja encontrar no seu destino muita água e alguma vegetação, quem sabe até uma floresta, é expectativa e causa ansiedade. Então, já que poucos apreciam visitar desertos, lugares inóspitos, neste período tão feliz, é bom pedir a papai do céu que continue nos presenteando com muita chuva, garantia de vida e conforto sempre. Afinal, existe prazer maior do que, depois da praia, desfrutar daquele banho para livrar o corpo do grude que o sal deixa, ou da incômoda presença da areia em cada orifício turístico? Ducha fria, chuveiro ou banheira de água doce, boa até para beber, é o que deseja o ser humano que ama viajar.

Entretanto, nem as reportagens impressas e televisivas, com seus números assustadores que não deixam dúvida quanto à veracidade dos fatos, conseguem sensibilizar esse pessoal fanático por um só tipo de clima, e que finge desconhecer os dados que apontam para uma provável escassez de água potável em futuro não muito distante. E esse povo sabe bem o que é necessário para que a ideia do sinistro desaparecimento do líquido precioso seja afastada: grande quantidade de precipitação pluviométrica, é o que é preciso. Fenômeno atmosférico que também providencia a rica comida que enche a barriguinha de toda essa gente mal agradecida.

A lógica diz que para a preservação da vida, um equilíbrio entre dias ensolarados e chuvosos é fundamental. Triste, porém, é ver rotulada de mau tempo a chuva tão esperada em tantas partes do mundo, inclusive aqui. Até porque, diga-se de passagem, a maior parte das pessoas que deseja intensamente o calor, trabalha duro, pega trânsito, condução apertada, sempre cheia de muita roupa, louca para alcançar um local com ar condicionado ou, vá lá, um ventilador. Por que, então, busca o frescor o sujeito que deseja somente sol de verão e nada de chuva? Coisa de doido!

PROF.RODOLFO DE SOUZA

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