Daqui do alto, onde tudo é paz e de onde muito se vê desse lugar em que há mais de um século germinei, cresci e tenho convivido em paz com a passarada, espreito apreensiva a clareira que se abre cada vez maior. É apavorante ouvir o tombo de cada irmã. Não suporto o som infernal do motor que mata minhas companheiras de décadas e, aos poucos, engole a mata, desalojando bichos, pisoteando e destruindo pequenas mudas que sequer tiveram a chance de alcançar seu primeiro metro.
Comenta-se por aqui que as autoridades desse país, que obviamente não fazem parte do reino vegetal, pensam em tomar medidas para frear o desvario do facínora devorador de florestas. E que este finalmente terá seu apetite contido pela mão de ferro. Pelo menos esta é a esperança que traz algum otimismo à mente desesperada. Apesar de que, quando olho à distância, temo que nada possa impedir o avanço dos dentes da serra que joga ao chão toneladas de madeira só para encher o bolso do homem que um dia também haverá de desaparecer. Quem sabe ao dar cabo da nossa vida com seu machado afiado, esteja mesmo assinando a sua sentença. Consola pensar nisso, que a crueldade não sobreviverá incólume. Talvez, o desespero diante do inevitável traga sentimentos assim tão pungentes aos corações cheios de rica seiva, sangue da árvore, que faz dela um ser tão vivo quanto qualquer humano.
Mas o sujeito é autuado, exclamam todas. Quando pilhado em flagrante delito, o funcionário dedicado às coisas da natureza e à sua saúde financeira que as toras cuidam de manter em forma, às vezes lavra uma multa para inglês ver. Claro que nem sempre há disposição para tanto trabalho, e a mão molhada quase sempre se recusa a preencher o talão, permitindo aos caminhões seguirem alegremente.
Daqui do meu lugar assisto a tudo sem sequer poder correr, o que muito me aflige, embora talvez não fugisse se pudesse, porque me faltaria coragem para abandonar os meus.
Tive, outro dia, a esplendida ideia de mandar um e-mail para alguém, como se eu entendesse de internet e de computador, do qual eu nem disponho. Sem contar as dificuldades que encontraria para, com a minha folhagem, digitar a súplica. Pensei até em pedir auxilio aos macacos, já que possuem mãos e, de sobra, ainda têm aquela habilidade, útil nessas horas de angústia, de se apropriar de objetos alheios. Afinal, para gritar ao mundo, eu preciso da máquina e não deve ser pecado roubar assassinos.
Símios também correm muito! Outra vantagem, apesar de que bate uma tristeza quando sinto seus pulos e travessuras sobre meu corpo: o que será deles, e dos pássaros, e dos outros bichos? Provavelmente tombarão com as árvores.
Cheguei a pensar, num instante de devaneio, em organizar um movimento, não para protestar, mas para implorar pelas nossas vidas e para tentar persuadi-los a largar aquela moto horrenda e partir para outro tipo de negócio. Dizer a eles que estamos vivas e que desejamos continuar sentindo a luz do sol que produz a nossa cor predileta. Seria possível, com essa conversa, sensibilizá-los? Acho que não. Só o dinheiro tem esse poder. Mesmo assim é preciso tentar alguma coisa. Se não podemos contar com os homens porque são homens e desprezam a vida, quem sabe se a bicharada corresse em nosso socorro e lhes sabotasse o equipamento? Sem chance, pobres bichinhos.
Os índios! Por que não pensei neles? Ora, porque são poucos e só possuem flechas, além de serem facilmente seduzidos pelo vil metal.
Pensando bem, acho melhor voltar à velha ideia do computador se desejo alçar a voz mundo afora e, com a esperteza da macacada, conseguir mandar um recado para a chefe da nação que esteve com os gringos para cobrar ações: “Ei presidente! Você que é mulher e, portanto, dotada de sensibilidade, dê só uma olhada para o jardim aqui de casa que está sendo destruído. Somente depois de tomar uma providência, a mais sensata e enérgica, cobre a sustentabilidade dos demais”.
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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