Quem disse que namoro, em qualquer tempo, deve ser escrito com sufixo a lhe atribuir caráter diminutivo? No momento em que é vivido tem sempre o sabor e a importância “ão” para as pessoas que ardem de corpo e alma na fogueira do desejo. É, parece piegas, aparenta mesmo exagerado e tem o jeito de uma almofada vermelha em forma de coração com bracinhos abertos onde se lê “meu amor por você é desse tamanho”. Mas é justamente esse apego, tão fundamental, que livra o peito daquele sufocante vazio de difícil entendimento para algumas mentes destituídas de sensibilidade.
E quando tudo é início, então, e a novidade tende a promover tremenda sacudidela no “eu poético” de cada um? Isso definitivamente não pode ser menosprezado! Lição que eu aprendi logo cedo, nos longínquos anos 1970 que o viço da adolescência tornou espetaculares. Conheci alguém, naquela época, que jamais imaginei transformar, um dia, em personagem de um texto. E, ao deixar de lado as fantasias da meninice para ter nos braços uma garota de verdade, aconteceu exatamente o que não pode ser chamado namorinho. Proporcionou-me ele o primeiro beijo, o primeiro toque, o primeiro amasso de peitos arfantes e extremidades hirtas. O estômago, por sua vez, com aquele habitual frio a percorrer-lhe o interior, dava o tom do romance que eu acabava de inaugurar em minha vida. Inadmissível, pois, conceder a tudo isso o status de namorico.
De tão intenso, parece-me até inverossímil, ponho-me a pensar. Tenho, às vezes, a sensação de que nasceu de uma fantasia. Principalmente quando, entregue às recordações, ela me surge, de olhos verdes e sorriso todo ele dedicado a mim, este modesto escritor que peleja na tentativa de trazer à tona a lembrança do sentimento de outrora. Porque, afinal, é comum lembrar de pessoas e acontecimentos. Mas conseguir obter um fragmento, uma migalha sequer das emoções antigas, como eram sentidas na essência, ainda que de passagem fugaz na mente atual, isso é muito difícil.
É certo que outros amores, desembarcados posteriormente do frenesi das paixões, inevitáveis e desconcertantes, muito fizeram para encher de euforia e dissabores a minha história. Todavia, nem todo esse turbilhão de relações amorosas foi suficiente para ofuscar o brilho daquele amor que teve o privilégio de ser o primeiro.
Tanta devoção ao sentimento, porém, não poderá passar incólume. A calúnia oriunda de tristes corações, logo fará alvo deste canto, relegando-o somente à minha natureza romântica. Oxalá todas as naturezas fossem, da mesma forma, românticas e fizessem da existência, bem temperada, com muito amor.
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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