O MENINO DA SEXTA SÉRIE

Todos os dias o menino da 6ª série vai à escola. Ele sabe que é preciso ir até lá, pois, é onde come melhor, brinca de pega, de bolinha de gude, de jogar papel, giz e demais objetos nos colegas, e ainda ganha mochila bacana. Também porque tem que ir e pronto.

Não é tão bom o lugar em que vive com a mãe e quatro irmãos, afinal não se diverte tanto e se pensar em tratar quem lhe pôs no mundo como trata um professor, toma logo um cacete. Seu pai, este não lhe bate. Está preso e nem sabe se sairá um dia, conta o filho orgulhoso para a molecada do pedaço.

O dialeto do menino é composto por algumas palavras monossilábicas, muita gíria e, principalmente, palavrões que repete constantemente em sala de aula, já que sem eles não teria como expressar indignação, admiração, alegria, raiva… Não haveria muito o que dizer. Até porque gosta da escola, mas detesta a aula.

Aquele ambiente é visto por ele como uma continuação da rua, local em que pratica brincadeiras, algazarras, agressões, tudo enfim que permeia o auge dos seus doze anos, num bairro pobre, de um país pobre. O garoto da 6ª série, às vezes, olha para o professor que fala e sua boca parece movimentar-se sem emitir som algum, mesmo quando grita. É o profissional que olha nos olhos do menino procurando algo de humano que possa sensibilizar com suas palavras, mas desespera-se frustrado diante da criança escondida atrás da parede de cinismo, intransponível.

Tenta com seu linguajar nenhum falar da matéria a que se propôs ensinar.

Não, ele não ouve e não permite que a minoria assustada ouça. Até porque considera uma forma de afronta dar atenção ao professor, indivíduo hostil naquele ambiente dedicado à diversão, que fala de coisas que ele não compreende.

Na realidade, o menino desconhece o seu papel no universo chato das letras, números e caras feias. Há muitos dedos apontando em sua direção e isso serve para polir seu ego que se orgulha quando ganha a alcunha de excelente mau aluno.

Não aprendeu, pois, que vive em sociedade e que nela existem regras, diferentes tipos de pessoas e que elas estão sujeitas às hierarquias da escola, do trabalho, da família.

O menino da 6ª série se rebela contra tudo isso, contra o sistema, contra si mesmo.

 

PROF.RODOLFO DE SOUZA

 

 

 

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