AS CASAS DE ANTIGAMENTE

As casas de antigamente eram cercadas de muros baixos com portões munidos de singelo ferrolho que determinava o quanto era preocupado com a segurança o morador para quem paranóia era palavra estranha, que não havia emergido para as rodas de conversa. Sequer imaginava ele que um dia estaria na moda. Muito verde sim, é o que havia nesses lares de floreiras e jardins ricamente cultivados que atraía a passarada a cada final de tarde, promovendo aquela algazarra tão boa para a alma. Além do quintal, claro. Varanda, todas elas possuíam e quase ninguém se importava com entrada para carro, coisa de gente rica. Vizinhos de longa data eram amigos sempre bem recebidos que adentravam o recinto familiar sem maiores cerimônias: “Ô de casa!”

Não que os lares de outrora fossem isentos de mal olhado, inveja, bolor, fofoca, pequenas desavenças cotidianas, enfim, tão pertinentes ao ser humano quanto respirar e morrer. Mas ainda assim havia qualquer coisa de puro naquelas pessoas de tempos idos. Provavelmente a malícia, excessivamente abundante nos dias de hoje, fosse sentimento escasso, o que talvez as fizesse pensar com seriedade no semelhante antes de tolher a sua liberdade, proferir a ele palavras de desalento… Sujar, denegrir, prejudicar de alguma maneira o nome do outro, não era mesmo de bom tom e isso os pais ensinavam aos filhos. Era preciso respeitar, principalmente os mais velhos: papai e mamãe, vovô e vovó, titio e titia e, imagine amigo leitor, professores… Ah! Também a instituição escolar, como um todo, era digna do mais profundo respeito.

Naquelas casas toda tecnologia disponível esbarrava na corda que era preciso dar no relógio para fazê-lo funcionar, sempre com o bom e velho prato de arroz com feijão cumprindo seu papel de produzir a energia necessária para esta função. Às vezes, um velho rádio que a família, normalmente numerosa, ouvia unida, fascinava pais e filhos, todos magros, encantados com uma programação ingênua, típica da época.

E aquela gente andava. Como andava! Longas distâncias eram consideradas “ali”. O corpo, sem dúvida, era submetido ao esforço para o qual fora criado e ninguém precisava de academia para malhar. As crianças inventavam brinquedos e brincadeiras, e corriam. Desconheciam o encantamento da tela na cara, que paralisa o olhar.

Exercitava-se também a educação, o que, de forma alguma, alterava o equilíbrio mental de cada um. Talvez não fosse a esmerada educação oriental, mas comparada ao que se vê em tempos modernos, todos eram muito educados e simples, tal qual as suas moradias, aquelas simpáticas moradias desprovidas de grades e cadeados que conferem à residência atual aquele ar soturno de cadeia. O medo que paira, por fim, fez prosperar o oficial serralheiro que tem trabalhado como nunca para tirar das casas a alegria. Hoje elas têm a cara trancada.

 

PROF.RODOLFO DE SOUZA

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