MEGALOMANIA

“Que você esteja em casa quando eu chegar. Nada de rua ou de amigos. Esqueça festas ou passeios com quem quer que seja” – voz de comando que, por muito tempo, martelou na minha mente perturbações de outrora.

“Esta casa que eu construí você invadiu a pretexto de cuidar de minha frágil saúde e, nem seu minguado aluguel, toda a sua atenção, dedicação e subordinação, que se estenderam por décadas, impediram ou impedirão minha língua de permanecer em frenético movimento caso venha a contrariar aquilo que lhe foi determinado pela minha valorosa, admirável e inigualável pessoa” – palavras repetidas com retórica forense e que, com o passar dos anos, mancharam-me a alma de indignação, sobretudo ao acordar de tamanho pesadelo e ser traído pela memória que fez questão de me esfregar na cara a verdade nua e crua que eu pelejava para ocultar de mim mesmo: sujeito frouxo!

Revoltado, corri em busca de endereço onde pudesse montar novo lar e esquecer. A felicidade pareceu-me, então, óbvia. Só que a senhoria colocou espião para controlar os passos da minha família dentro da residência, tentando, quem sabe, limitar nossas idas ao banheiro, previsto em contrato. De nada resolveu discutir. A truculência daquela fez lembrar, inclusive, os tempos idos e também de titia que, em dado momento, limpou em minha cabeça a sola do sapato que acabara de amassar aquilo que o mal educado cachorro depositara no passeio público. Rastejava-me, por assim dizer, a seus pés, como era desejo seu que eu agradecesse pelo empreguinho que viera em boa hora, num período de recessão brava que colocara no olho da rua tantos homens de bem. Época em que nada mais restava além de recorrer a ela que comandava grande escola e abraçou com carinho a minha causa, até porque precisava dos calçados sempre em ordem.

Quando o vendaval finalmente cessou e eu parei para refletir sobre o poder do qual é dotado uma significativa parcela da população, parentes ainda mais próximos sugeriram que eu frequentasse baile de músicas mais adequadas à realidade que eu vivia. Afinal, ensino superior de qualidade para a prole, isso é pura bobagem. Quem não pode não estuda, trabalha.

Injuriado, procurei orientação divina, e meus ouvidos incrédulos transmitiram ao templo do meu entendimento, que a igreja é dele, que Deus fala com ele em pessoa, e que ele exige que todos acreditem em suas palavras, do contrário a porta da rua é serventia da casa. Simplesmente – insistiu ele – porque amo tanto meu rebanho, pequei. O Senhor talvez não tenha entendido bem o meu amor. Mas fui eu que fundei isso, fui ainda o idealizador daquilo, participei de, sou o responsável por… Hoje eu chefio, eu corto, eu perdoo, faço e desfaço. Eu, eu, eu…

Perfil cruel este do ser humano que ostenta o poder em vários níveis. Basta que se dê uma espiada ao redor ou no jornal para se vislumbrar, aqui e ali, conduta de quem finge não saber do sopro tênue que lhe sustenta a vida. Aflige até, pensar que eu, de posse de qualquer migalha desse poder, talvez venha a ser seduzido também pelo queixo erguido, e que a compulsão por me sobrepor aos demais em importância, faça de mim mais um escravo da soberba. Dá o que pensar.

 

PROF.RODOLFO DE SOUZA

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