Precisava pensar numa crônica bem bonitinha para a minha coluna. Um texto que falasse somente de coisas boas como o sol da manhã de inverno que vem para aquecer a Terra, fustigada pelo frio da noite. Um texto em que o feio e o grotesco não encontrassem espaço para se expressar. Somente isso! Continue lendo “A MENINA E O CACHORRINHO”
TODO DIA É DIA DE CARNAVAL
Duvido que haja, neste mundo, povo mais irreverente e propenso ao deboche do que este que habita, feliz, esta vasta planície Tupinambá. Continue lendo “TODO DIA É DIA DE CARNAVAL”
RETRATO DE ARMAZÉM
Vi, noutro dia, uma cena que tocou-me como duvido que tocaria qualquer outra pessoa. Assim, com a mesma intensidade. Não, não se trata de guerra, desabamento de prédio ou mar de lama. Somente três pessoas que compunham o quadro que me pareceu até fotografado em preto e branco. Coisa antiga, sabe? Talvez pelo elemento de singeleza, nada comprometido com a modernidade e com a realidade dos fatos, é que minha mente a viu assim, destituída de envolvimento com o mundo. Nem percebi, aliás, o quanto da sua essência é possível que haja na vida, ao redor de todos nós. Continue lendo “RETRATO DE ARMAZÉM”
OLHAR VAZIO PARA A NATUREZA MORTA
Sem que me desse conta, fui apanhado de surpresa pela imagem do índio olhando para o rio. A cena, muito intensa, conduziu-me aos velhos livros de História que nos levavam sempre a associar índio à natureza. E isso não se perdeu no tempo. Antes, permanece vivo na memória, como um canto ou uma dança na tribo. Não havia, pois, nada de tão surpreendente naquela foto, pois se tratava de uma foto o que me chagava aos olhos e fazia retumbar no meu peito o coração aflito por uma explicação. Continue lendo “OLHAR VAZIO PARA A NATUREZA MORTA”
O TEMPO ANDA QUENTE
O tempo ainda está quente. Embora a temperatura esteja mais amena, o calor dos trópicos ainda se faz sentir no coro do brasileiro. Bem própria de como deve ser no outono, contudo, a temperatura segue bem comportada e não promete grandes surpresas tórridas. Continue lendo “O TEMPO ANDA QUENTE”
O POVO ESCREVE
O povo escreve para o ex-presidente. Alguns, pelas mãos de outros, porque não descobriram ainda o segredo da palavra escrita, com todo o seu fascínio. Mas eles sabem. Embora não dominem a formação de sílabas que constroem palavras, eles entendem muito bem o que se passa, simplesmente porque sua natureza humana lhes concedeu o pensamento, como bênção ou como castigo, não sei bem. Mas é o que lhes basta, segundo sua maneira rude de ver as coisas e discernir sobre o seu significado. Continue lendo “O POVO ESCREVE”
O HOMEM E A ARTE DE GUERREAR
O homem gosta de fazer guerra. Guerra para tomar o que é do outro. Guerra vã que concede poder momentâneo e sofrimento infindável. Dor para o oprimido e dor para o opressor que não vence, senão por meio de muita luta que requer perda material e de vidas que se vão sem sequer desfrutar do bem espoliado. E daí? Fica para o companheiro vivo o deite, fazer o quê? É, afinal, daquele que permanece de pé, a glória de usufruir da riqueza alheia. E de fato a impressão de ter ganhado alguma coisa fica para o que, além de vivo, conserva pernas, braços e olhos que podem testemunhar o retorno à vida. E, apesar de lá no fundo saber que jamais tocará de verdade no produto do roubo, resta como consolo ao sobrevivente que visitou o inferno em troca de nada, o prêmio de ter escapado dele. Continue lendo “O HOMEM E A ARTE DE GUERREAR”
O APOGEU DA ESCULHAMBAÇÃO
Há muito que ouço dizer que este é o país da esculhambação. Ouço e testemunho, logicamente. Tempos atrás, inclusive, soava cômico título tão debochado como a própria natureza do sujeito que aqui nascera, crescera e fizera cultura. Era fonte de inspiração para comediantes e compositores esse orgulho que sempre fez voltar para as bandas de cá o olhar do turista, indivíduo sério, habituado ao bem comportado mundo do respeito ao próximo e às regras. Tanto é que, meio cansado do entediante cotidiano, todo ele dedicado à seriedade destituída do sorriso farto, o viajante, às vezes, se despia do perfil sisudo e levantava voo para este rico solo, só para experimentar da farra no quintal do samba. Continue lendo “O APOGEU DA ESCULHAMBAÇÃO”
NOVAS AVENTURAS NO PRODIGIOSO REINO DO Ó
O antigo rei, aquele que deu tombo feio na rainha, recentemente foi conduzido ao cárcere por coisas feias que fez durante quarenta anos, segundo a gente que o prendeu. Pode ser. Se é o que dizem… Continue lendo “NOVAS AVENTURAS NO PRODIGIOSO REINO DO Ó”
NEM SÓ DE CARNE VIVE O HOMEM
Aborrece-me, por vezes, lembrar daquilo que me esforço sempre para esquecer: o lado peculiar do povo que tem pouca ou nenhuma afinidade com os livros. A ideia de ler e estudar soa estranha e de difícil compreensão para essa gente, uma vez que passa a vida escolar, quem frequenta ou esteve numa escola, travando longas quedas de braço com professores e seus, somente seus, assuntos. E o desdém para com as coisas relativas ao conhecimento, leva-os ao recinto estudantil somente para prestigiar os movimentos sociais que se dão por meio de longas e entusiasmadas conversas, gargalhadas e atitudes normalmente avessas à proposta pedagógica. Talvez esteja lá no berço a origem de tamanho descaso para com tudo que leva à expansão da inteligência, do pensamento refinado e crítico. Afinal, o que pode ensinar a um filho aquele que nunca aprendeu, que jamais experimentou as delícias da descoberta? Desanima, inclusive, imaginar que alguém assim, destituído de um fiapo de leitura, coloque no mundo outro alguém que crescerá carente de sabedoria simplesmente por não ter sido apresentado a ela no seio familiar. Há de lhe soar hostil, até, o modo educado do semelhante que se desenvolveu em outro ambiente, qualquer coisa mais intelectualizado. Contando ainda com a inconveniente possibilidade de se ver essa antipatia estendida até a carteira escolar e além, se desta não tirar proveito o aluno. Continue lendo “NEM SÓ DE CARNE VIVE O HOMEM”