A CADA VEZ MAIS DIFÍCIL ARTE DE ENSINAR PORTUGUÊS

Há muito tempo decidi encarar o ofício de ensinar. Amo sobremaneira o meu trabalho que consiste basicamente em clarear a mente ainda verde, fazê-la amadurecer e dar a ela os primeiros passos no salutar exercício de pensar. E porque sou professor de Português, interpreto textos, os mais variados, junto com os alunos, para quem a escrita ainda soa complexa demais, condição responsável por aquela preguiça danada que bate no coro na hora de estudar. Sigo ao lado da garotada também na produção das temidas redações, na leitura dos trabalhos feitos, pedindo para que refaçam e consertem o que deixou a desejar… Eterna prática de releitura, reescrita e chateação que sempre dá muito o que falar. Insisto ainda na necessidade de se ler bastante para tornar rico o texto. O problema é quando me perguntam sobre o que ler… Antes eu sabia o que responder, hoje procuro rever meus métodos. Continue lendo “A CADA VEZ MAIS DIFÍCIL ARTE DE ENSINAR PORTUGUÊS”

TSUNAMI LÁ, MAREMOTO CÁ

Tsunami é aquele fenômeno chato que antigamente levava o nome de maremoto aqui em terra de língua portuguesa. Não sei bem o porquê de chamá-lo assim agora. Talvez porque a incidência seja maior em terras orientais, que inventaram esse nome, ou ainda por causa da mania que tem o povo tupinambá de sempre bancar o estrangeiro para se sentir mais importante. Acha mesmo que dá mais qualidade ao produto colocar-lhe nome internacional. Também funciona assim com estabelecimentos comerciais, e até um desastre como aquele, que, neste momento, protagoniza os noticiários, se torna mais pungente, mais chique, mais trágico quando se dá a ele a alcunha de país distante. Continue lendo “TSUNAMI LÁ, MAREMOTO CÁ”

O JOÃO QUE ERA DE DEUS

Um dia João achou que era Deus, e resolveu agir como tal. Só que João não era Deus, era homem, unicamente, homem. E, por ser homem, gostou da brincadeira, e não percebeu que sua mente era limitada, e que só poderia mesmo brincar. Nada mais. E, foi assim que sua genética, exclusivamente humana, rapidamente o convenceu de seu poder sobre os demais de sua espécie. E tanto se fingiu de Deus que passou a curar o semelhante, aquele que não fora contemplado com o dom divino concedido somente a ele. E a coisa tomou proporções tais que o tornaram, de fato, unanimidade, sempre procurado, reverenciado, amado… E não demorou, inclusive, para que João se sentisse absoluto, detentor de poderes a ele conferidos por… Ah! Por ninguém. Por ele mesmo, que se considerava Deus. Continue lendo “O JOÃO QUE ERA DE DEUS”

CULTO AO ÓDIO

Quando se experimenta uma dor na alma por questão qualquer, além dos remédios faixa preta, com alguma frequência busca-se nas prateleiras de livrarias e de hipermercados aqueles livros que ensinam a conquistar amigos, ganhar dinheiro facilmente, arrumar um bem-querer, mil formas, enfim, de ajudar o sujeito a não se entupir de antidepressivos ou dar cabo da vida. Há também as edições de cunho religioso que não deixam por menos ao levar consolo ao leitor cheio de amagura, para quem só resta aguardar um milagre. Sem dúvida, uma infinidade de métodos de tratamento à disposição. Continue lendo “CULTO AO ÓDIO”

VAMOS TODOS AO TEATRO

A plateia chora, a plateia sofre, se enche de expectativa, ri e grita, se espreme no empurra-empurra, toca no ídolo, se emociona por ter tocado no ídolo… A plateia é todo coração, coração mergulhado na esperança e também no medo de perder o espetáculo. Dá até para entender: a plateia é gente e, como tal, tem no peito um coração que palpita, vivo, vivíssimo, carregado de uma emoção que, uma vez canalizada, talvez até suprisse de energia todo um país. Este país. Continue lendo “VAMOS TODOS AO TEATRO”

QUE ATIRE A PRIMEIRA PEDRA

A pedra escorregou morro abaixo, esmagando as moradias e seus ocupantes. Pesando toneladas, o maciço é insensível e nem reparou na dor e nas lágrimas derramadas por causa de sua travessura. Mas a pedra se exime de sua culpa quando nota os dedos apontando na sua direção. Alega que já tinha algum tempo habitando aquelas paragens, quando a primeira casa foi erguida a seus pés. Também que dormia sono profundo, sem perceber que se movia. Talvez o período que passara imóvel a tivesse deixado meio esquecida do significado da palavra mover-se. Claro que seu minguado pensamento rochoso não lhe permitiu deduzir ainda que a água, tinhosa que só vendo, derreteu o barranco e a deslocou, como vem deslocando através dos milênios. Continue lendo “QUE ATIRE A PRIMEIRA PEDRA”

O FOGO É FOGO

E o fogo implacável não devora só museus e barracos, devora também matas, casas e gente. Pessoas sem recursos e pessoas com dinheiro suficiente para comprar o que quiser, exceto a condescendência do fogo que é imparcial. A natureza é mesmo assim, não se deixa subornar nem intimidar, tampouco faz acordos escusos. Na verdade, não dá lá muita importância para a natureza humana, sobretudo aquela de pensamento vil, cujo único propósito nesta vida é a conquista desenfreada de bens materiais que o fogo facilmente consome. Talvez perseguir esse objetivo, faz se sentir mais forte o ser de visão um tanto limitada e equivocada, que só consegue enxergar grana como fonte de todas as boas coisas. Continue lendo “O FOGO É FOGO”

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