CARLINHOS VAI À PESCARIA

Carlos Roberto não entende muito bem a lógica adulta que espalha ao seu redor figuras de alegres bichinhos como forma de carregar de emoção e fantasia a sua vida que ora se inaugura. Começa, inclusive, a suspeitar de que o convívio diário com porquinhos, vaquinhas, galinhas e peixinhos, não passa de pura balela, embora perceba também a importância dos felizes personagens que tornam mais alegres os seus dias, além de fazê-lo viajar na imaginação de menino que ainda sonha e desconhece a dureza deste mundo. Continue lendo “CARLINHOS VAI À PESCARIA”

VELHO AMIGO

Meu velho amigo se foi. Era jovem ainda e a notícia caiu-me com estrondo na cabeça. Estranha sensação de choque na madrugada, que me invadiu o peito e me deixou aquele gosto amargo de impotência diante do improvável, diante da fragilidade do fio que nos dá sustentação neste plano tão conturbado. Continue lendo “VELHO AMIGO”

A CHUVA

A chuva cai. Indiferente a todos os acontecimentos históricos ou recentes, felizes ou não, ela cai. Alheia à opinião do homem sobre isso e aquilo, à sua política, à sua determinação em promover a injustiça e a angústia, ela despenca volumosa, preenchendo o vazio do meu peito. E o vento, este formidável, ainda comparece para dar valiosa contribuição e deixar no coração este sentimento de fascínio pelo poder que se agiganta diante da presença humana. Entre trovões e relâmpagos que clareiam a noite, ela segue varrendo com força ruas e telhados, lavando e levando de roldão coisas, árvores e gente. Ela não se importa. Ela é soberana. Cai como se pretendesse mostrar ao mundo que nele não há quem possa deter o seu ímpeto que despreza leis, mazelas e emendas. Continue lendo “A CHUVA”

COM A PALAVRA, A JUVENTUDE

“Pensei que já tivesse visto de tudo nesta vida.” – bordão que acompanha o povo daqui e de outros cantos mundo afora, e serve para dizer daquilo que causa surpresa e, por que não, estarrecimento. Entretanto, uma vez dentro da internet, um riquíssimo universo de palavras e imagens se abre e se apressa em envolver-me na magia da informação, o que, por vezes, principia mexer-me também com as emoções, por causa do espanto. E foi justamente num passeio destes que deparei com um filme que tem como protagonista uma menina, aluna do nosso rico ensino médio, que decidira que era momento de se fazer ouvir na Assembleia Legislativa do seu estado. Ela que representa a comunidade estudantil e também o povo cego que faz do silêncio a sua bengala, armou-se de muita coragem e meteu-se na boca do leão para levar o seu recado. Imagine! Continue lendo “COM A PALAVRA, A JUVENTUDE”

CONVERSA DE BOTEQUIM

— É, choveu pedra na Rússia!

— Grande coisa – desafia o companheiro de balcão, brasileiro que se vangloria de tanta chuva de granizo a despencar em território nacional em época de verão.

— Mas nesse caso é diferente – insiste o outro. Não é pedra qualquer, de gelo, que se precipitou lá no território gelado. Se fosse, ninguém daria importância num lugar onde ela nem líquido voltaria a ser. É pedra vinda do espaço, da maior parte do universo! Daquele lugar sobre o qual pouco se fala, talvez pela falta de conhecimento ou mesmo porque é de gelar a alma de qualquer um a insignificância de nosso mundinho perante ele. Continue lendo “CONVERSA DE BOTEQUIM”

CADA VEZ MAIS DISTANTE O DIA DA VITÓRIA

No distante e vastíssimo reino do Ó, em tempos de reinado novo, o que se percebe é uma apreensão nos olhos incrédulos da imensa população que trabalha e trabalha e passa toda uma vida mergulhada até o pescoço no sacrifício e na correria sem, contudo, poder descansar um dia. Sentadinha no morro, matinho no canto da boca, bem que gostaria essa gente de apreciar verdinho tudo o que finalmente conquistou através de anos de luta. Farta colheita depois de décadas de plantio, por certo que lhe encheria o olhar. Continue lendo “CADA VEZ MAIS DISTANTE O DIA DA VITÓRIA”

DIA DE PROFESSOR

É dia do professor e assisto passivo à programação da TV que presta a sua justa homenagem àquele que dedica a sua vida ao extenuante ofício de ensinar. Logicamente que os teóricos, os que ainda respiram e caminham por esta vasta planície e também aqueles que do subsolo dela fizeram morada, mas ainda dão palpites, condenariam tais palavras, uma vez que, segundo eles, auxiliar o aluno na construção do seu conhecimento é o que se espera de um profissional da educação nos dias de hoje. Ensinar, transmitir o conhecimento, falar também sobre as engrenagens que movem esta sociedade, dos ventos que tocam esta vida, da experiência conquistada em décadas na estrada, além da sua própria matéria, tudo se configura inútil, bancário. Deve-se, pois, rever os métodos para adotar novas estratégias. Estratégia, termo mais utilizado na educação do que nas forças armadas, significa o que o professor deve inventar como procedimento, tão logo retire as mãos da cabeça diante da turba enfurecida que parte direto dos porões da sociedade para uma sala de aula, mas que merece todo amor e uma oportunidade de aprender para a vida melhorar. Continue lendo “DIA DE PROFESSOR”

MELHOR IDADE

Instalou-se recentemente numa sala de sexto ano, lá da minha escola, um frenesi, objeto de meu apreço, já que muito me diverte a criatividade quando o assunto é brincadeira. Além, claro, do pitoresco que o quadro sempre oferece e que costumeiramente dá margem a algumas linhas. Continue lendo “MELHOR IDADE”

COM A BOCA NO TROMBONE

O cavalo relincha, enquanto o jumento orneia. Termo um tanto desconhecido este que, pela falta de uso, deve até deixar o dicionário, qualquer dia destes. Afinal, quem se lembra de que um burro, jegue ou qualquer um da espécie, tenha lá sua voz? Mas tem. E quando bota a boca no trombone, é para se fazer ouvir. Claro que moradores de áreas urbanas, sobretudo, dos grandes centros, por serem incapazes de perceber a diferença entre este e os demais de quatro patas, sequer se lembram de que ele fala. Fala, obviamente, a sua língua, principalmente em ocasiões em que é preciso dar um basta na aporrinhação. Continue lendo “COM A BOCA NO TROMBONE”

COLHE-SE O QUE SE PLANTA

Mais algumas explosões sacudiram os nervos de Tio Sam no último fim de semana. Trata-se, todos sabem, de uma síndrome do mal que teve origem em passado não muito distante em que um país do Oriente Médio recebera a visita nada amistosa da cara amarrada de Tio Sam, em pessoa. Estava de olho, o gatuno, no precioso óleo daquele. E, para tanto, se armou, o tinhoso, de grosseiro argumento só para justificar ao mundo sua intenção sórdida de tomar de assaltoa terra do outro. Coisa feia! Dizia que o ditador daquele lugar escondia na manga do paletó armas químicas prontas para destruir o mundo. Coisa de novela mexicana que os povos não engoliram muito, não, embora ninguém tivesse peito para contestar sua majestade. Continue lendo “COLHE-SE O QUE SE PLANTA”

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