Enquanto o mundo ainda celebra as conquistas olímpicas do último evento, lá na Síria eles continuam a ganhar ouro no tiro. Tiro de morteiro, de fuzil, das bombas que os aviões deixam cair inadvertidamente, tiros que partem da mente insana daquele que insiste na ideia de que o poder lhe fora destinado por obra divina, razão mais do que suficiente para que ninguém tente tomá-lo. E, no momento em que a coisa não funciona assim, com o vento soprando a seu favor,o tirano promove a morte por atacado. Só para mostrar quem manda. Determina ainda a destruição da cultura, dos costumes, da vida de todo um país, arruinados num estalar de seus longos dedos sujos, logo mais, descarnados. Continue lendo “O MENINO DE ALEPPO”
OLHA LÁ O VOVÔ
— Mamãe, olha lá o vovô!
— Não, não é o vovô, filho.
— É sim, mamãe! É ele sim!
— Não é não, filhinho. Venha!
— Mas mamãe, é o vovô, ali naquele carro.
— Já disse que aquele não é o vovô, e não fique aí parado, menino! Venha logo. Olhe, seu pai já vai lá adiante. Vamos. Continue lendo “OLHA LÁ O VOVÔ”
O ESCRITOR (A MANUEL FILHO)
O escritor, embora dotado de imaginação ímpar, não é capaz de imaginar a barbaridade de empenho do qual se valeu toda uma escola que programou recepcioná-lo e prestar-lhe homenagem. Vestiu-se, aquela gente, de entusiasmo nunca visto para se dedicar à festa que preparara com capricho, todinha ela para o escritor. Uns trabalhavam nas alegorias, outros ensaiavam dança e canto para que tudo resultasse certinho, sem nenhuma possibilidade de ocorrer um mico. Continue lendo “O ESCRITOR (A MANUEL FILHO)”
O DIABO DO REGIME
O ditador quer explodir o mundo. Como se fosse o dono da bola, tenciona mesmo acabar com o jogo antes que o tempo regulamentar se esgote. Há, inclusive, uma forte suspeita de que deseja ver deserta a várzea só para exercer o seu poder sobre a bola que lhe vai debaixo do braço e sobre o nada bem à sua frente. Continue lendo “O DIABO DO REGIME”
OLIMPÍADA MUDA A CARA DO REINO
Fala-se por aí que no distante reino olímpico do Ó todos os acontecimentos deixaram de acontecer em função dos jogos. E ainda, que o povo feliz se farta com toda a festa, sobretudo, por saber que o país deixou a crise econômica, pela qual vinha passando, e que todos os demais problemas simplesmente deixaram de ser problemas, preocupados que ficaram em dar passagem aos atletas. E que até na longínqua província potiguar, a respeitada comunidade do crime, em reverência ao evento, procurou conter seus ímpetos incendiários e sossegou. Teria ainda, num gesto tocante, cedido os fogos para o magnífico show pirotécnico da abertura das competições. Continue lendo “OLIMPÍADA MUDA A CARA DO REINO”
OS AMIGOS
Lá estão eles na porta do bar. É ali, afinal, o lugar dedicado, antes de mais nada, aos amigos. O templo do bate-papo, da descontração… Continue lendo “OS AMIGOS”
DOCE HORIZONTE
A menina transita pela praia e pela adolescência que, não demora, tem vencido seu prazo de validade. Carrega uma espécie de sacola dependurada nos ombros e nesta, feito bicho marsupial, leva uma criança, provavelmente o filho. Ostenta o pequeno como um troféu que recebera desfilando simpatia e graça pela comunidade. Continue lendo “DOCE HORIZONTE”
TOMA-SE DINHEIRO
O teimoso cidadão que tem assegurada em sua mente a ideia de que o dinheiro é a mola propulsora deste mundo, está absolutamente correto. Afinal, sem ele certamente não viveria, esta civilização moderna, o apogeu da tecnologia, tampouco desfrutaria de tanto conforto. Continue lendo “TOMA-SE DINHEIRO”
O ARTEFATO
O artefato é confeccionado por mãos humanas. Mãos que se empenham e, com habilidade, dão consistência e forma àquilo que servirá para propósitos outros que andam na contramão da vida e que, mesmo assim, não pesam um grama na consciência de quem o produz em troca do rico salário que o sustenta respirando. Ainda que não se possa culpar o operário de chão de fábrica por causa disso, já que facilmente se fartaria, se permitido lhe fosse desfrutar do privilégio de dispor de um minguado trabalho de assessoria em casas municipais, estaduais, federais e tais. Se pudesse escolher, por certo, trocaria seu magro pagamento por aquele, abandonando o emprego sem olhar para trás. Continue lendo “O ARTEFATO”
AS ÁRVORES DE SÃO PAULO
Ah! Como são belas as ilhas de concreto, salpicadas de verde! Do verde que se esmera para decorar as cidades e limpar a atmosfera, sempre carregada de dejetos que o progresso espalha. Continue lendo “AS ÁRVORES DE SÃO PAULO”