SOMBRAS NA NOITE

O rapaz de pouco mais de vinte anos, trabalhava no setor de frutas do mercado. Dedicado, procurava manter abastecidas as bancas para que a freguesa pudesse escolher, em meio à grande variedade, sempre produtos fresquinhos. Cuidava de tudo como se aquilo fosse seu e preocupava-se em nunca deixar nada podre ou passado, só mercadoria boa. Dizia que era preciso estar de olho. Ganhou, inclusive, a simpatia da dona de casa que escolhia comprar ali justamente por causa da dedicação do profissional. Orgulhoso, tocava sua função com seriedade para que tudo corresse bem naquele que era o seu espaço, o local que ele comandava com carinho. Formação acadêmica não tinha, tampouco chegara a esquentar um banco escolar. Sua parca leitura fazia dele homem de personalidade até rude, embora boa praça. Continue lendo “SOMBRAS NA NOITE”

O CERNE DA PREGUIÇA

Há mesmo muito de preocupante nesta sombria atualidade, cotidiano de quem pula cedo para o pão batalhar. Uma única olhadinha no jornal é suficiente para se perder a paz com notícias e mais notícias que fomentam o desânimo. À nossa volta também é possível perceber movimentos estranhos e olhar de soslaio de quem desconfia até da própria sombra. Por toda parte, a violência, de tocaia, espreita e aguarda o que vem distraído e que, sem dúvida, passará bem perto da sua enorme garganta. É o crime em todas as suas facetas, roubando das pessoas o direito à vida, à dignidade. Com arma, sem arma, com gravata, de avental branco… De roupagens e métodos variados se reveste, enfim, a brutalidade neste país de faz de conta. O povo, coitado, já não a enxerga mais. De tão comum, o coisa ruim ficou invisível. Talvez por isso o conformismo já tenha se tornado, tal qual samba e futebol, parte da cultura dessa gente que tudo que sabe é que a situação vai mal. Continue lendo “O CERNE DA PREGUIÇA”

BREVE REFLEXÃO SOBRE… O QUE QUISER

Época boa, aquela das festas de fim de ano, momento ideal para se lavar a alma das sujeiras e do azar que devem ficar para trás. Mais oportuno ainda, nestes dias, é exercitar a mente e refletir um pouco. Isso mesmo, refletir, pensar a fundo acerca de algo. Neste caso, o fio tênue que dá sustentação à vida do ser aqui nesta terra de celebrações, é justamente o ponto crucial que tem desviado o meu pensamento de qualquer outro tema. Andei mesmo cheio de divagações sobre o súbito, o repentino ato de morrer. Continue lendo “BREVE REFLEXÃO SOBRE… O QUE QUISER”

A ASSUSTADORA PASSAGEM DO TEMPO

Minha prima resolveu dar uma festa para comemorar seu aniversário e convidou-me, feliz, para a celebração. Prima que eu vi nascer! Logicamente que “vi nascer” é força de expressão antiga de que me faço valer, aqui neste espaço, e que muito me auxilia quando pretendo reforçar a ideia do tempo transcorrido desde que fiquei sabendo de seu nascimento. Diga-se de passagem, nem idade eu tinha para discernir acerca do evento. De qualquer forma, assustei-me ao ouvi-la dizer que comemorará cinquenta primaveras. E como isso tem causado incômodo neste peito cansado! Tem me espantado de verdade. Espanto, termo que, aliás, melhor se encaixa neste contexto, uma vez que tenho pensado com seriedade sobre o assunto todas as vezes em que, numa roda de bate-papo, a conversa gira em torno da idade madura de parentes próximos, garotada que conheci bebê. Difícil, então, conceber coroa a menina que eu me habituei a enxergar menina.  Continue lendo “A ASSUSTADORA PASSAGEM DO TEMPO”

SEM ÁGUA NÃO DÁ

Não chove. Somente uns poucos pingos que a misericórdia divina lança cá para baixo com o conta-gotas. E então o tempo fica assim, seco de verdade, tal qual clima de deserto. O que será de nós, pobres seres feitos de água, sem água?! O governador, detentor de todo o poder a ele conferido pelo voto, prometeu que vai mandar chover. Só não sabe se São Pedro lhe dará ouvidos. Isso porque tem consciência, embora não admita, de que o santo não é brasileiro e, por conseguinte, inoculado contra o mal da conversa fiada. Tampouco lhe apraz, justo que é,  propina de qualquer monta. E, no andar da carruagem, político ou padre, não há quem convença o intercessor que anda irredutível e promete não amolecer nem mesmo em nome de sua amizade com São Paulo. Continue lendo “SEM ÁGUA NÃO DÁ”

TERRA DO NUNCA

Nunca na história desse país existiu um presidente que tivesse governado com o apoio de pessoas comprometidas com um trabalho sério e, digamos, honesto, voltado mesmo para o bem estar da população. Como doença ruim, a cultura de subtrair recursos de órgãos públicos se perpetua na lucrativa atividade de consumir a saúde econômica do estado. Parece brincadeira o frenesi de corrupção nas esferas governamentais de todos os níveis dessa nação que às vezes parece uma terra de mentirinha, de faz de conta. Uma região qualquer, dessas que alguns escritores inventam, e que não ficam em parte alguma do mundo. Continue lendo “TERRA DO NUNCA”

TIRO CERTEIRO

O avião decolou de Amsterdam com destino à Austrália. Minutos antes, pulsações desenfreadas em peitos ansiosos, marcavam o compasso de espera. Eram as pessoas que buscavam acalmar-se pensando na viagem, na chegada, em tudo que pensa alguém que embarca rumo ao novo, ao inusitado, cheio de uma expectativa palpável. Motivos tinha de sobra, aquele pessoal que galgava os degraus rumo ao interior do aparelho, para sentir aquele tão peculiar frio na alma. Um deles, o receio íntimo, incontido que a própria perspectiva de voar costuma oferecer, vinha da lembrança perversa de pessoas que tiveram as vidas abreviadas porque se lançaram aos céus a bordo de aeronaves. Pensamento sinistro que sempre busca sabotar o clima de descontração em viagens aéreas, mas que, naquele instante, cedeu lugar à euforia, e gente de todas as idades se uniu no interior da máquina, cheia de entusiasmo, sem saber que participava de um encontro entre irmãos de igual destino, afinidade que a miséria humana haveria de promover. Continue lendo “TIRO CERTEIRO”

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