Houve um tempo em que o cidadão dirigia-se ao banco para movimentar a conta bancária, honrar as prestações, pedir um estrato para conferir o orçamento apertado, um empréstimo, saldo, essas coisas. Como hoje, entrar e sair de agências era um tanto corriqueiro, como corriqueiro era se deparar com a incômoda presença de outro correntista que ao invés de usar cheque para sacar, sacava logo uma arma, normalmente de grosso calibre, que apontava para a cara do gerente, do caixa ou atendente, exigindo a grana que ali estivesse, fosse no cofre, na gaveta ou no bolso. Tudo ao seu alcance, sem perda de tempo! Silenciosamente, então, o cliente, seguindo as instruções, depositava no piso frio o rosto repleto de medo cinematográfico, enquanto a curriola deitava e rolava no dinheiro fácil. A polícia aparecia depois, bem depois. Continue lendo “VIDAS GIRATÓRIAS”
COM A BOCA NO TROMBONE
Enquanto o cavalo relincha, o jumento orneia. Termo um tanto desconhecido este que, pela falta de uso, deve até deixar o dicionário, qualquer dia destes. Afinal, quem se lembra de que um burro, jegue ou qualquer um da espécie, tenha lá sua voz? Mas tem. E quando bota a boca no trombone, é para se fazer ouvir. Claro que moradores de áreas urbanas, sobretudo, dos grandes centros, por serem incapazes de perceber a diferença entre este e os demais de quatro patas, sequer se lembram de que ele fala. Fala, obviamente, a sua língua, principalmente em ocasiões em que é preciso dar um basta na aporrinhação. Continue lendo “COM A BOCA NO TROMBONE”
TEMPOS DIFÍCEIS
Pedir uma pizza de calabresa com a descabida intenção de solicitar ao atendente que caprichasse na cebola, foi gesto um tanto comum em tempos idos. Em dias atuais, contudo, esse costume vem perdendo lugar para o bom senso que manda conter os ânimos e buscar a cebola que se encontra guardada, quietinha, na prateleira doméstica, caso sinta corroer-lhe a alma o ultraje de ter de se contentar com os fiapos que vieram na sua pizza. A vida dura com o dinheiro curto é mesmo assim, tende a obrigar o comilão a ter bons modos e adotar novo comportamento se, de alguma forma, lhe for importante continuar cultivando a amizade com o dono da pizzaria. Continue lendo “TEMPOS DIFÍCEIS”
POBRE CHEFA!
A chefe do executivo anda meio velha, coitada. O semblante carregado denuncia a excessiva carga tributária e demais cargas que lhe pesam nos ombros. Dá, inclusive, a nítida impressão de estar amargamente arrependida de um dia ter se lançado de cabeça na arriscada aventura que é a presidência desta ilha da fantasia. Continue lendo “POBRE CHEFA!”
RIR PARA NÃO CHORAR
Na escola pobre da periferia, Érika lidera. Não conhece a liderança política, a empresarial, a comercial, a marginal, mas lidera. Continue lendo “RIR PARA NÃO CHORAR”
REFÉM DA TECNOLOGIA
Estão desaparecendo as utilíssimas placas com os nomes das ruas, nos bairros das cidades. Antes os moradores, principalmente das esquinas, possuíam aquelas azuis, consultadas todas as vezes em que alguém, vindo de outras paragens, necessitava saber de sua localização, se estava no rumo certo, se havia encontrado o endereço, se um tal trecho da via pertencia à mesma ou se já teria outro nome, enfim, uma série de dúvidas que só o letreiro com a marca registrada do logradouro era capaz de elucidar. Continue lendo “REFÉM DA TECNOLOGIA”
QUER UM CONSELHO?
Iniciei o meu serviço no editor de texto do computador. Tempos modernos estes em que a tecnologia é ferramenta indispensável em nossa vida. O mesmo diria, estou certo, o sujeito escritor que, habituado à pena, se vira, repentinamente, diante da esferográfica ou da surpreendente máquina de escrever. Limiar de uma nova era em que a cibernética começava a reinar soberana. Continue lendo “QUER UM CONSELHO?”
CONFRATERNIZAÇÃO, POR QUE NÃO?
Confraternização é o termo que melhor se aplica ao sentimento que predominou nos momentos que precederam e que culminaram com a expiração de papai. Que Deus o tenha! Continue lendo “CONFRATERNIZAÇÃO, POR QUE NÃO?”
UM BIGODE PARA SEMPRE! (Homenagem a meu velho pai)
O homem está inerte. Seu peito se move por causa da máquina que o impele a mover-se. Na verdade, o ventilador respira o homem que ali se encontra prostrado. Seu rosto inchou e as tiras o deformaram. Continue lendo “UM BIGODE PARA SEMPRE! (Homenagem a meu velho pai)”
SER NADA SOCIAL
É manhã e, preso no engarrafamento, um homem, morador de rua que vem pelo passeio, me chama a atenção. Leva-me, o sujeito, a fazer algumas considerações e conjecturas a respeito da vida de quem, como eu, corre atrás do sucesso. Sucesso no trabalho, consequente garantia de dinheiro maior; sucesso no amor, certeza de cama melhor; sucesso na vida social, sinônimo de bajulação. É preciso, pois, que resulte em sucesso, qualquer coisa em que se bote a mão. Muito natural! Continue lendo “SER NADA SOCIAL”