DESESPERANÇA

Jenifer não gosta da mãe. Diz que é insuportável e atribui a ela outros adjetivos nada condizentes com o perfil materno, todo ele dedicado e bondoso das propagandas de maio. Carrega, a adolescente, muita mágoa no semblante entrecortado de desesperança quando retrata o cotidiano violento do bairro onde vive com a família composta de irmão, irmã, e a carranca daquela que a concebera e que agora passa o tempo a lhe conferir culpas, calúnias e demais impropérios. A menina não sabe por quê. Continue lendo “DESESPERANÇA”

DESAFORO

Desaforo é morar numa cidade praiana repleta de turistas nos grandes feriados, que trafegam pelas ruas em caçambas de camionetes, no teto delas, por sobre as janelas de automóveis em geral, em carrocerias de caminhões, porta-malas de carros hatch back (balançando as perninhas do lado de fora), enfim, em locais que os gênios da indústria automotiva sequer imaginaram que um dia gente haveria de se acomodar confortavelmente. Pensam até os projetistas da área, em instalar bancos nos lugares da preferência dos compradores de veículos destinados a trafegar no litoral. Estratégia de marketing, sabe? Afinal, os comerciais de TV exaltam todos os itens de conforto dos carros, como o espaço interno, por exemplo, que enche de orgulho o fabricante que nem percebe que o externo é bem maior. E é pensando nisso que essas pessoas passeiam assim, ao ar-livre, em que até o aparelho de ar-condicionado gastão é dispensado por não oferecer ventania tão refrescante. Continue lendo “DESAFORO”

VIDA DE PROFESSOR

A luta cotidiana de um professor não se resume a giz e diários. Para espanto geral, é regada também de acontecimentos que fazem da sua profissão um misto de desânimo, dor de cabeça e aventura. Diga-se de passagem, um tipo de aventura constante no dia-a-dia de quem lida com o ser humano nos extremos de sua existência. Trocando em miúdos, ou trabalha com criança, ou com adolescente, ou com ambos. Missão nada fácil por se tratar de duas fases críticas da vida, em que os escrúpulos nem sempre são observados, e a energia se apresenta numa amperagem que normalmente deixa de lado o bom senso e a educação. Quadro ainda mais negro por se tratar de uma clientela que está dentro da escola somente porque é obrigada. Repudia, sobretudo, assuntos de cunho intelectual, razão mais do que suficiente para fazer manifestar a agressividade latente, sempre propensa a explodir no lombo dele, do professor, claro. Impulsividade que brota de pessoas de tenra idade, de agora e de outras épocas, essa catarse tende a bloquear a mente, dificultando a aquisição de conhecimento, até porque o jovem, nos dias de hoje, está mesmo habituado ao fácil e ao fútil, rejeitando com veemência tudo que exige um pouco mais de seu cérebro. Continue lendo “VIDA DE PROFESSOR”

QUEDA LIVRE

Os mais antigos bem sabem que vestir uniforme e cantar o Hino Nacional eram práticas corriqueiras nas unidades escolares de antigamente, e ajudavam (como ajudavam!) a abrir suas portas para o respeito que era consolidado pelo ensino mais forte que cobrava resultados. Continue lendo “QUEDA LIVRE”

CHUVA BENFAZEJA

Faz frio e a garoa é intensa. Venta muito, e o clima, considerado mau para alguns, deixa aquele sentimento de aconchego dentro de casa, do carro, da roupa, de nós mesmos. Tem essa função, afinal, o céu cinzento, de nos conduzir diretamente à introspecção, viagem que pode ser longa, cheia de idas e vindas no tempo de uma vida que se foi e que se vai a cada segundo, carregada de acontecimentos que fazem bater forte o coração, nem sempre alegre, não necessariamente triste. Continue lendo “CHUVA BENFAZEJA”

CASTELO DE CARTAS

O prédio antigo da movimentada avenida era mesmo firme, de paredes bem conservadas. Sem rachadura qualquer, ou com alguma fissura insignificante só no reboco, a tudo resistiria, endossavam as pastilhas do acabamento externo. As décadas acumuladas sobre seus ombros davam-lhe certo charme de edifício de área central da cidade. E as pessoas que adentravam o recinto, subiam e desciam pelas escadas gastas, e não se davam conta do tempo transcorrido. Claro que não consideravam os anos passados daquela construção. Pouca gente pensa na idade de um prédio, de uma rua, ou do que quer que seja além da sua própria. Talvez a correria do dia-a-dia impeça reflexão mais profunda a respeito. Continue lendo “CASTELO DE CARTAS”

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