O parque verde convida para o passeio. Em meio a árvores antigas e vegetação farta estão as alamedas que cortam pequenos lagos de carpas e tartarugas. Os pássaros voam por toda parte, mas sempre com o cuidado de não deixar as dependências de água e vasto arvoredo. A vontade de caminhar por este lugar é sentimento que bate, logo que se chega. É magia a encher a alma urbana. Continue lendo “O PARQUE DA MINHA CIDADE”
O ABACATEIRO
Rosa havia muito emplacara os noventa anos e, tirando alguma dor ou mal estar frequentes em pessoas de idades avançadas, era capaz de executar qualquer serviço doméstico que aprendera desde menina. Continue lendo “O ABACATEIRO”
OLHOS PERTURBADORES NA NOITE
Nunca tinha reparado nos olhos de uma mariposa, ou de qualquer outro inseto. Mas uma delas levou-me a notá-los ao apanhar-me de surpresa, debruçado por sobre um livro, um magnífico livro que folheava devagar, apreciando textos e fotos, riquíssimos em cada detalhe da vida de três dos maiores escritores brasileiros. Continue lendo “OLHOS PERTURBADORES NA NOITE”
VIDAS ALAGADAS
Eu tentava não deixar minha casa, afinal tudo que possuímos é nela que guardamos, inclusive, um bocado de sentimento impregnado nas paredes, emoções que norteiam a existência de cada um. Todas as nossas riquezas estão lá, com exceção de dinheiro, claro, sonho distante de pessoas sujeitas às intempéries do clima. Continue lendo “VIDAS ALAGADAS”
TAMANDUATHEY
A avenida estava lenta, lenta pelo trânsito bastante congestionado em horário de pico. Nó que faz perder o tempo e a paciência. De repente, ocorreu-me indagar sobre o que teria causado o engarrafamento. Tola indagação presente nessa hora. Eu estava só. Era, pois, a única pessoa que poderia responder à minha pergunta. Cheguei, afinal, à óbvia conclusão de que não é necessário que haja um motivo para ter seu tráfego parado, uma grande cidade. Somente um determinado número de veículos tentando passar pelo mesmo local à mesma hora, e pronto. Quando acontece algum acidente, então, é bom nem pensar. A alternativa mais tranquila e econômica num momento como esse é desligar o motor e relaxar. Se tiver um livro à mão, tanto melhor. Continue lendo “TAMANDUATHEY”
ORAÇÃO
Perdoe, meu Deus, a falta de palavras. Aquelas que os especialistas em religião possuem em seu repertório para se dirigir ao Senhor. Parece até que soam mais autênticas e com maior possibilidade de chegar até aí, orações pronunciadas por alguém que leva jeito para a coisa. O que certamente não é o meu caso. Continue lendo “ORAÇÃO”
ESPELHO, ESPELHO MEU
Pouca gente se dá conta de que atravessa a vida colecionando um amontoado de costumes e manias de forma compulsiva, às vezes, como entrar em casa por uma porta, e deixá-la pela mesma porta; ao trancá-la, é preciso verificar excessivamente se está fechada; os objetos, para alguns, devem ser dispostos sempre na mesma posição, por sobre um móvel; utilizar por décadas a mesma marca de um produto, também não deixa de ser transtorno para outros… E o que dizer, então, daquele que nunca usa roupa ou calçado de determinada cor, que jamais começa a subir uma escada, ou ainda adentrar um recinto com o pé esquerdo? Sem dúvida, uma vastíssima gama de aporrinhações a acompanhar essa gente por toda uma existência. Professor, por exemplo, tem o estranho hábito de dialogar consigo mesmo. Talvez pela certeza de que assim alguém dará crédito às suas palavras. Esquisitice que a educação nacional criou para ninguém botar defeito. Continue lendo “ESPELHO, ESPELHO MEU”
GENTE MUITO LOUCA
Assisti, certa vez, a um filme em que um homem branco, preso numa aldeia de índios hostis (logicamente norte americanos), ouve de outro, com jeito de maluco, capturado anos antes, que o melhor a fazer era fingir ter miolo mole também, única maneira de ser temido e respeitado por seus algozes. Continue lendo “GENTE MUITO LOUCA”
É TEMPO DE CHOVER
Está aberta a temporada de chuva, benfazeja chuva de verão que hidrata a pele e a mantém viva. Lava a alma também, e da de comer, e produz a lágrima que é derramada para engrossar o caldo da enchente. Porque afinal, grande é a quantidade de precipitação pluviométrica que encharca o cotidiano de quem mora nas encostas, baixadas, sopés… É gente que, como eu e você, depende dela para sobreviver, mas que deseja, cheia de rancor, que se vá para sempre quando o excesso leva de roldão a vida. E então este povo, cuja sina é mesmo manter os olhos voltados para o céu, em prece pede qualquer fresta de azul, de luz do sol que há de tudo secar. Da mesma forma que lá, noutro lugar, seca o pasto e o olhar das pessoas, igualmente dirigido ao firmamento. É mesmo coisa de louco essa existência em que se convive com os contrários: bem e mal, belo e feio, claro e escuro, necessário e demasiado… São desejos que se contradizem e dos quais não há como se livrar. Fazer o quê? Continue lendo “É TEMPO DE CHOVER”
COISAS DE CACHORRO
É notório o sucesso que fazem as coisas de odor repugnante na vida dos cães. Impressiona a atração desses animais pela matéria em decomposição e demais porcarias. O focinho, com aparelho cheirador privilegiado, está sempre metido em lugares pouco atraentes a outros bichos. Questiono até se o olfato poderoso não seria responsável pela distorção dos cheiros, tornando-os agradáveis aos narizes caninos. Da mesma forma, se cheirássemos, nós humanos, com tantas vezes mais sensibilidade como os cachorros, talvez dividíssemos com eles o prazer de saborear o mau-cheiro que, aliás, é possível que nem fosse assim tão mau. Continue lendo “COISAS DE CACHORRO”